No dia 14 de março, aproveitando a data do nascimento do poeta Castro Alves, comemoramos o Dia Nacional da Poesia. É uma ocasião em que grande parte das escolas desenvolve trabalhos interessantes. Normalmente os professores reúnem os alunos, produzem materiais em forma das mais diversas figuras, sobre as quais depositam palavras, reproduzindo pequenos versos. Muitos preparam saraus, propõem até que os alunos ilustrem, declamem, dramatizem textos e assim por diante. Tudo isso, com o propósito de despertar, na criança, a sensibilidade e de tornar mais vivo o lirismo na vida do aluno.Convém dizer, entretanto, que poesia não é composta apenas de sensibilidade. Aliás, ela o equilíbrio entre razão e sensibilidade. E é justamente essa razão que pede a discussão do conceito sobre o que, de fato, podemos considerar como poesia.Numa cena de sala de aula, diante da pergunta sobre o que é poesia, aparecem as mais diferentes respostas. O curioso é que, em linhas gerais, senão todas, quase todas as atribuições dos alunos servem de alguma maneira para explicar o fato poético.A palavra poesia, que vem do grego “poiesis”, significa criar, no sentido de imaginar. É talvez por conta desse pressuposto criativo, o de criar por imagens, que, no passado, havia a indiferenciação entre a lírica, a narração e o drama, pois todos os três casos, de maneira geral, eram considerados como poesia. É somente a partir das primeiras décadas do século XIX, com a adoção da palavra “Literatura”, a qual passa a designar a arte da escrita nos diferentes gêneros, que a poesa deixa de ser um termo generalizante, passando a termo específico, ligado essencialmente à lírica e à musica.
Mas, como sempre as respostas vão e as perguntas ficam, resta de nossa parte compreender melhor o que é poesia, numa concepção contemporânea do termo. No meu caso, quando sou perguntado, não raro, respondo utilizando as palavras que escuto dos próprios alunos, a fim de ilustrar a dimensão da poesia, pois, como numa espécie de onipresença, ela, a poesia, pode estar em tudo, dependendo do olhar de cada um, ou seja, da condição subjetiva daquele que vê e transforma a matéria natural em elemento poético. Entretanto, diante da pergunta, quase sempre me ocorre uma resposta enfática, a de que poesia “é sentimento de mundo”. Podemos, por exemplo, dizer que poesia é recordação, entendendo como “recordar” a idéia de tornar presente no coração (na mente, para uma concepção mais moderna) o passado, o presente e o futuro. Recordar o passado é trazer ao coração, ou na mente, o passado, como acontece no poema “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu,
Oh! Que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonho, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!Mas, por intermédio da poesia, podemos também recordar o presente, já que alguns textos parecem não envelhecer nunca, apontando insistentemente não somente para o contexto do poeta, mas também para o contexto da própria leitura. Isso porque o poeta não costuma se entregar aos vícios da referencialidade, da gratuidade, e do panfletarismo, preferindo falar mais de sentimentos universais e menos de paixões particulares, restritas ao tempo e ao espaço. Dessa maneira, o escritor contraria aqueles que acreditam que poesia seja coisa de passadistas, porque, afinal de contas, é possível, sim, discutir o presente sob a ótica da poesia, como acontece no poema “Nosso Tempo”, de Carlos Drummond de Andrade, do qual retiramos exemplarmente o fragmento:
Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
[...]
Este é tempo de divisas
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.E, por mais que a expressão pareça contraditória, podemos afirmar ainda que a poesia também é importante para nos fazer recordar o futuro. Isso acontece porque o poeta, na condição de vate, é um visionário, sujeito que faz vaticínios, quase um profeta, mesmo que às avessas, sendo capaz até de antecipar nossas angústias e alegrias acerca do porvir. É o caso do poeta Augusto dos Anjos, que, há um século, mais ou menos, no seu poema “A árvore da serra”, já discutia os problemas ambientais, discussão tão em voga na atualidade, em um texto que mistura lírica, prosa e drama, como podemos ver a seguir:
As árvores, meu filho, não têm alma,
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma!...— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!No arremate, podemos dizer então que poesia “é um texto em que o significante não existe meramente a serviço do significado”. Para muitos é visualidade, principalmente para os apreciadores da poesia concreta, os quais enfatizam a importância do visual na produção de sentido. Para outros é pensamento por imagens, já que, de fato, não podemos mesmo conceber poesia sem imagens. Enfim, poesia é linguagem, é expressão, é ritmo (música), é som, é palavra carregada de sentidos, é comunicação (mesmo que comunique despretensiosamente, sem tanta objetividade), é o Tudo, é o Nada. Não há discordância em nada disso, assim como não se discorda também de que a poesia sirva para provocar sentimentos, causar impressões, reflexões e as mais diferentes emoções.
Gedeon Campos
quarta-feira, 25 de março de 2009
DIA NACIONAL DA POESIA
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Quem sou eu
- Gedeon Campos
- Professor, pesquisador nas áreas de literatura, linguagens, imagens e fatos sociais
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