Outro dia sonhei que prestigiava os brilhos de centenas de vaga-lumes, em estágio de pisca-apaga a famosa luz abdominal, ao som de uma orquestra de grilos, sapos e corujas. De repente as bocas dos grilos ficaram gigantescas e os sapos desinflaram seus papos em gritos roucos nos microfones. Uma coruja aumentou o volume das caixas de som e rodopiou continuamente sua cabeça em 360 graus, sem fazer a contorção contrária, como na cena famigerada do filme O Exorcista. Os grilos gargalhavam para estourar ouvidos e dançavam no frenesi da boate, com o auxílio das luzes piscadas pelos pirilampos. Acordei com as gargalhadas de ébrios transeuntes e com os únicos três acordes em todas as músicas de um CD de forrobodó. Nas duas esquinas do quarteirão em que moro há seis bares, destes que vendem espetinhos e bebidas até o raiar do sol. Lembrei-me de um texto do professor e bandolinista Euler Amorim garantindo indenização civil aos prejudicados pelos barulhos excessivos, além de existir o crime de perturbação ao sossego público e as multas previstas no Código de Trânsito Brasileiro e de Postura Municipal. É que estamos na era do barulho, em constante competição: o ganhador é quem grita mais na praça, na feira; as lojas disputam, lado a lado, quem prevalece no ouvido de um cliente. O economista Cláudio de Moura escreveu um artigo dizendo que o baixo crescimento da economia também é reflexo do barulho excessivo. Enquanto isso, estão nas ruas os carros de som, os autofalantes, as frenagens, buzinas, os sinais de intervalos em escolas, os gritos, os latidos, as motos e os escapamentos furados invocando balburdia. Há o anual concurso de barulho de carros, os “tunnings”, de sons, de motos etc. Outro dia vi uma caminhoneta cujo investimento em equipamentos de som foi de 45 mil reais! E os trios elétricos? Se a nossa tolerância aos 65 decibéis máximos for quebrada – o que acontece no dia-a-dia – pode causar até mesmo infarto e surdez. As leis são desrespeitadas até mesmo pelos legisladores (veja nas proximidades das eleições o estardalhaço que vira cada pedaço de terra habitada nas cidades!); o que fazer para garantir o direito ao silêncio? Uma campanha obrigatória de educação em massa? Agora conto uma pequena ficção, lembrando que toda coincidência é mera e flagela a demência de quem assemelha: Um famoso e antigo político de renome, e velhos costumes de angariar votos comprados, de nome Juju Nelson, velho conhecido por liderar o apedrejamento do caixão da famosa vítima do césio 137, Leide das Neves, famoso também por solicitar inúmeros pedidos de estatísticas a diversos órgãos, para fingir que trabalha numa árdua pesquisa legislativa, além de entrar com inúmeros processos contra outros políticos por uso irregular de dinheiro público nas propagandas, é proprietário de uma fazenda que diuturnamente era sede de eventos familiares, comemorações políticas, palestras religiosas e festas “raves”. Um lugar misto onde o sol se misturava com a lua e o frenesi constante deixava moradores surdos e de olhos fundos. Por milagre, num dos últimos encontros religiosos, mais precisamente um retiro espiritual, o legislador teve uma visão: Jesus Cristo desceu do céu sorrindo e com o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio. Juju entendeu o recado e nunca mais aquela terra foi sede de nenhum evento, mesmo político. A paz reinou imperiosa, até mesmo os grilos, os sapos e as corujas respeitaram o pedido de Jesus. Algo fabuloso, nenhum ruído sequer. De repente, aparece uma combi silenciosa, andando lentamente, e nas proximidades gritou: “óia pamonhaaaaaaaa!”.
Leonardo Teixeira
Escritor e autor do livro "Afinadores de piano"

Nenhum comentário:
Postar um comentário