quarta-feira, 25 de março de 2009

DIA NACIONAL DA POESIA

No dia 14 de março, aproveitando a data do nascimento do poeta Castro Alves, comemoramos o Dia Nacional da Poesia. É uma ocasião em que grande parte das escolas desenvolve trabalhos interessantes. Normalmente os professores reúnem os alunos, produzem materiais em forma das mais diversas figuras, sobre as quais depositam palavras, reproduzindo pequenos versos. Muitos preparam saraus, propõem até que os alunos ilustrem, declamem, dramatizem textos e assim por diante. Tudo isso, com o propósito de despertar, na criança, a sensibilidade e de tornar mais vivo o lirismo na vida do aluno.

Convém dizer, entretanto, que poesia não é composta apenas de sensibilidade. Aliás, ela o equilíbrio entre razão e sensibilidade. E é justamente essa razão que pede a discussão do conceito sobre o que, de fato, podemos considerar como poesia.

Numa cena de sala de aula, diante da pergunta sobre o que é poesia, aparecem as mais diferentes respostas. O curioso é que, em linhas gerais, senão todas, quase todas as atribuições dos alunos servem de alguma maneira para explicar o fato poético.

A palavra poesia, que vem do grego “poiesis”, significa criar, no sentido de imaginar. É talvez por conta desse pressuposto criativo, o de criar por imagens, que, no passado, havia a indiferenciação entre a lírica, a narração e o drama, pois todos os três casos, de maneira geral, eram considerados como poesia. É somente a partir das primeiras décadas do século XIX, com a adoção da palavra “Literatura”, a qual passa a designar a arte da escrita nos diferentes gêneros, que a poesa deixa de ser um termo generalizante, passando a termo específico, ligado essencialmente à lírica e à musica.

Mas, como sempre as respostas vão e as perguntas ficam, resta de nossa parte compreender melhor o que é poesia, numa concepção contemporânea do termo. No meu caso, quando sou perguntado, não raro, respondo utilizando as palavras que escuto dos próprios alunos, a fim de ilustrar a dimensão da poesia, pois, como numa espécie de onipresença, ela, a poesia, pode estar em tudo, dependendo do olhar de cada um, ou seja, da condição subjetiva daquele que vê e transforma a matéria natural em elemento poético. Entretanto, diante da pergunta, quase sempre me ocorre uma resposta enfática, a de que poesia “é sentimento de mundo”. Podemos, por exemplo, dizer que poesia é recordação, entendendo como “recordar” a idéia de tornar presente no coração (na mente, para uma concepção mais moderna) o passado, o presente e o futuro. Recordar o passado é trazer ao coração, ou na mente, o passado, como acontece no poema “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu,

Oh! Que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonho, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Mas, por intermédio da poesia, podemos também recordar o presente, já que alguns textos parecem não envelhecer nunca, apontando insistentemente não somente para o contexto do poeta, mas também para o contexto da própria leitura. Isso porque o poeta não costuma se entregar aos vícios da referencialidade, da gratuidade, e do panfletarismo, preferindo falar mais de sentimentos universais e menos de paixões particulares, restritas ao tempo e ao espaço. Dessa maneira, o escritor contraria aqueles que acreditam que poesia seja coisa de passadistas, porque, afinal de contas, é possível, sim, discutir o presente sob a ótica da poesia, como acontece no poema “Nosso Tempo”, de Carlos Drummond de Andrade, do qual retiramos exemplarmente o fragmento:

Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
[...]
Este é tempo de divisas
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

E, por mais que a expressão pareça contraditória, podemos afirmar ainda que a poesia também é importante para nos fazer recordar o futuro. Isso acontece porque o poeta, na condição de vate, é um visionário, sujeito que faz vaticínios, quase um profeta, mesmo que às avessas, sendo capaz até de antecipar nossas angústias e alegrias acerca do porvir. É o caso do poeta Augusto dos Anjos, que, há um século, mais ou menos, no seu poema “A árvore da serra”, já discutia os problemas ambientais, discussão tão em voga na atualidade, em um texto que mistura lírica, prosa e drama, como podemos ver a seguir:

As árvores, meu filho, não têm alma,
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma!...

— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

No arremate, podemos dizer então que poesia “é um texto em que o significante não existe meramente a serviço do significado”. Para muitos é visualidade, principalmente para os apreciadores da poesia concreta, os quais enfatizam a importância do visual na produção de sentido. Para outros é pensamento por imagens, já que, de fato, não podemos mesmo conceber poesia sem imagens. Enfim, poesia é linguagem, é expressão, é ritmo (música), é som, é palavra carregada de sentidos, é comunicação (mesmo que comunique despretensiosamente, sem tanta objetividade), é o Tudo, é o Nada. Não há discordância em nada disso, assim como não se discorda também de que a poesia sirva para provocar sentimentos, causar impressões, reflexões e as mais diferentes emoções.

Gedeon Campos


quarta-feira, 11 de março de 2009

Velhos diretores: sentimento de decadência

Muitos diretores das escolas municipais de Aparecida bem que espernearam para ficar no poder. Não duvido de que, por conta da indecisão na escolha de seus substitutos, tenha inclusive havido momento em que alguns deles (os antigos diretores) do alto de seu nanico poderio, tenham chegado a dar gritinhos do tipo "tá dominado!, tá tudo dominado!", pensando ter caído nas graças da nova administração municipalista e na ingênua crença de que perpetuariam e se imortalizariam na posição de mando.
É claro que, no caso, o erro da Secretaria Municipal de Educação foi justamente o fato de ter dado prazo para que estas ilustres personnas non gratas alimentassem ainda mais a sua vaidade de poder. A exoneração dessa gente deveria ter acontecido, sem dó nem piedade, imediatamente, logo no primeiro ou, quando muito, no segundo dia de governo. A demora na reposição dessas peças só fez a tentativa desesperada dessa gente (os antigos gestores) de manter-se no poder tornar-se uma atitude ridícula. Teve gente, inclusive não pouca, profundamente jocosa, que chegou a fazer abaixo-assinado, produziram faixas louvominhosas, louvando sua própria eficiência, e usando o nome do povo para querer impressionar o prefeito e vereadores, resistindo apear do poder. Esses velhos diretores só não se lembraram, porém, de que o político, mais do que ninguém, é aquele que sabe o quanto as faixas e cartazes que louvam um determinado sujeito não passam de coisa arquitetada e levada a cabo pelo próprio ser louvado e colocado em evidência.
Ora, mas que ingenuidade a desses velhos diretores que não se lembraram de que o político é aquele que durante a madrugada sobe em postes com dizeres do tipo: "os moradores da cidade tal, do bairro tal, agradecem pelo apoio, empenho, trabalho, dinamismo do prefeito ou vereador tal!" E o povo que normalmente é citado como quem assina o texto, nem mesmo chega a saber se está agradecendo alguém por alguma coisa. Quando acorda e olha pela janela do quarto, está lá na frente de sua casa a "bendita" faixa agradecendo em seu nome.
Bem, o fato é que, para o bem de todos, não deu mesmo certo a tentativa desesperadora dos diretores de se manterem no poder. E as escolas nem se abalaram. Seguem seu ritmo ordinário e mesmo que professores e funcionários sentirem-se insatisfeitos não pretenderão a volta desses antigos gestores acostumados ao singular papel de bajuladores políticos, incapazes de entender a importância de se discutir os problemas da categoria e da educação no chão da escola e no seio da comunidade escolar.
Ninguém sentirá saudade das ameaças, dos discursos que eram mais coercitivos do que persuasivos, das convocações para reunião na casa de diretores e secretários em época de eleição... Quem terá saudade disso, senão o próprio diretor, essa figura decadente. Aliás, nos últimos dias, depois da queda de braço perdida, parece que alguns deles finalmente entenderam a importância da democracia na escola. E agora já se organizam em nome das eleições diretas para a gestão escolar. Será que apear do poder trás mesmo sabedoria? Ou não será isso apenas uma estratégia para que os antigos apaniguados voltem ao poder?

Maguito Vilela e o dilema da educação em Aparecida

Quando Maguito Vilela iniciou sua campanha pelo pleito de 2009-2012 em Aparecida de Goiânia, o preteitável não conhecia praticamente nada do sistema de educação do município. Tanto era que seus primeiros discursos quase sempre apareciam carregados de promessas que, por puro desconhecimento no assunto, nem chegavam mesmo a ser "propostas", pensando aqui no sentido restrito do termo. Verdade é que o falatório não ia além dos clichês, tão peculiares à perfórmance das campanhas políticas.
Mas de uma coisa o então candidato tomou conhecimento por meio de apoiadores como Léo Mendanha e Ozair José, secretário e deputado estadual, respectivamente, e isso marcou em definitivo os rumos de sua campanha. Maguito baseou na insatisfação praticamente generalizada de professores e demais funcionários das escolas - por sua vez, revoltados com as barganhas políticas entre o executivo e legislativo municipal, cujos arranjos transformaram os vereadores em mandatários das unidades de ensino e numa espécie caricata de senhores feudais, cada qual ligado a sua região de mando. - para ventilar a possibilidade de estabelecer as eleições diretas para gestores das escolas da rede municipal de ensino. A ideia de democratização das escolas pegou de tal modo que o prefeitável cresceu na preferência do eleitorado, o que culminou na sua vitória ainda mais expressiva.
Depois da posse de Maguito Vilela, porém, muita coisa mudou e a categoria de profissionais da educação do município passou a viver, pelo menos até agora, momentos de profunda incerteza. Nem mesmo a indicação para a pasta da Secretaria da Educação do professor Domingos Pereira, ex-presidente do Sintego, sindicato que representa a categoria, trouxe calma aos corações aflitos. O problema é que Domingos, mesmo sendo um calejado sindicalista, experimentado e acostumado a vociferar contra as mazelas e injustiças praticadas contra os profissionais da área, na condição de secretário não deixou de meter os pés pelas mãos. Serviu-se dos mesmos mecanismos dos políticos das antigas para substituir os velhos diretores das escolas, artifícios a que não deveria recorrer. Alguns garantem que o secretário é de pouca capacidade para o diálogo. Falta-lhe humildade até mesmo para conhecer a cozinha de sua secretaria. Mas o pior mesmo foi o fato de o homem, assim que assumiu, ter passado como uma espécie de tufão, arrancando paus e pedras, sem deixar nada em pé, servindo-se exclusivamente do critério político. Particularmente acho que os velhos diretores já foram tarde, mas se era para a coisa acontecer desse jeito, que a substituição fosse feita apenas pelo vereador tão acostumado a fazer com que sua própria vontade suplante a vontade popular.
Gedeon Campos

terça-feira, 10 de março de 2009

O leitor no mundo

Ensina-se na escola que a linguagem é comunicação e que, por meio dela, os homens retratam representam e compreendem a realidade. Mas pensar que a expressão verbal seja uma forma de se fazer refletir o real é olhar de modo ingênuo a linguagem. Aliás, é supor uma relação aparentemente pacífica entre os sujeitos que fazem parte do "jogo" comunicacional. Chamo de jogo porque, com efeito, as cenas discursivas, cenas linguageiras, cenas conversacionais, oferecem-nos uma ideia de interação verbal que, em grande parte dos casos, nada mais é do que pura ideologia, espécie de "drible" com o fim de escamotear e de suplantar as verdades da vida.
É necessario entender que a "interação verbal" não é uma realização tranquila e os discursos muitas vezes oferecem-nos apenas uma ilusão de objetividade. Então, quando penso no professor ministrando leitura servindo-se de jornais e revistas, que são uma espécie de escrita do quotidiano, ocorre-me sempre a seguinte indagação: de que modo agir para que os textos se desvelem aos olhos do aluno? Essa preocupação cresce ainda mais quando o assunto é publicidade no contexto escolar, porque um simples deslize, por ignorância no assunto, poderia causar danos de difíceis reparos. É o que ocorre quando o professor encanta-se pelo continente e ocupa-se de embalagens e rótulos, satisfazendo-se com uma leitura meramente intrumental das coisas.
Digo isso porque, em certa ocasião, uma professora fez um depoimento emocionado de que, pelo fato de ter trabalhado em sala de aula com marcas de produtos e marcas de empresas, uma sua aluna havia identificado uma loja tal, durante um passeio tal pela cidade. Mas esse tipo de trabalho é muito superficial e apenas acelera o consumo irrefletido. O professor acaba atendendo aos interesses do mercado, produzindo consumidores que possuem com as mercadorias uma relação oposta e, portanto, contraditória. Chamo de contraditória o fato de não ser mais as mercadorias que estão aí para suprir às necessidades do homem. E sim o fato de serem os homens que agora parecem apêndices das mercadorias. São elas, as mercadorias, que geram a necessidade no homem, quando na verdade são elas que deveriam ter sido geradas pela necessidade do homem.
O estudo da publicidade deve abrir os discursos de modo que o aluno possa identificar quais mecanismos estariam fazendo parte do jogo comunicacional a fim de convencer o leitor e acelerar o consumo. As marcas dos produtos não podem entrar em cena, alheias à análise das cores, dos formados e do design de embalagens dos produtos. (continua...)
Gedeon Campos

sexta-feira, 6 de março de 2009

HISTÓRIA (mal contada) DE APARECIDA DE GOIÂNIA

A expressão “há controvérsias!”, do saudoso ator Francisco Milani, o Pedro Pedreira da “Escolinha do professor Raimundo”, é algo que logo me vem à cabeça sempre que leio sobre a história de Aparecida nos textos que se fizeram publicar até o presente.

Acontece que alguns, a pretexto de narrar a história do município, quando não quiseram ganhar dinheiro, por intermédio de uma escrita fácil, bajuladora e alheia a critérios, quiseram se promover e, desse modo, talvez, possibilitar que alguns nomes ficassem gravados e atrelados à história da cidade.

Na condição de historiadores, essa gente precisaria reconhecer que a recomposição de fatos históricos não é uma atividade pacífica, nem produto de vaga reminiscência. Muito ao contrário, além do aparato teórico, a historiografia pressupõe trabalho de campo envolvendo observações, entrevistas, cruzamento de dados, até que as informações coletadas chegassem a tal estado de saturação e as entrevistas começassem a ficar redundantes. Só depois o sujeito poderia sentir-se apto para sentar e recompor a história, obtendo inclusive licença para fazer as interferências naturais que resultariam da interpretação dos fatos. Mas o problema é que nem todos pensam dessa maneira. Sucede que a idéia de ser o primeiro a tocar num determinado assunto gera certa euforia e isso teria motivado alguns a escreverem de qualquer jeito, contrariando, muitas vezes, a inteligência e o bom senso.

Mais ou menos assim é o contexto do livro Aparecida de Goiânia: do zero ao infinito, editado em 2002 pelo ex-prefeito da cidade, Freud de Melo, que nas páginas 28 e 29, confessa ter fraudado o senso demográfico do antigo povoado em nome de sua emancipação. Os que já leram a "obra" - e as escolas as tem às dezenas - sabem que o texto é de pouco fôlego e mais parece arremedo de historiografia. A leitura é cansativa pela extensa lista de processos, projetos, números de leis, que leitor nenhum precisaria dar-se ao trabalho de ler, e o passado na narrativa aparece como pretexto para justificar a cabotinagem do autor. O livro é muito mais focado no tempo presente, generoso com muitas figuras - inclusive com a do próprio autor - o que nos faz pensar na falta de pesquisa, na timidez, na ausência de erudição e na perda de memória do narrador. A obra erra nas datas, nos cálculos, na linguagem e os relatos refletem graves paradoxos, a exemplo da contradição entre as páginas 94 e 100, pois o escritor, no primeiro caso, fala de fidelidade ao retratar os fatos históricos e, no segundo, elabora um engodo narrativo – e aqui as palavras são do próprio autor – ao comentar que os jornais de Aparecida “noticiam de forma imparcial os acontecimentos mais importantes da cidade”.

Ora, sabemos que a imparcialidade é um mito que não se deixa apreender e que o simples fato de alguém selecionar um determinado assunto ou designar uma causa já significaria, por antecipação, assumir um posicionamento. Daí, falar de isenção e de compromisso com a verdade, quando o assunto é jornais que por aqui sobrevivem do financiamento público, não passa de “forçassão” de barra. Enfim, a suposta obra nasceu há bem pouco e já está relegada ao esquecimento das prateleiras porque é desorganizada na sua composição, cansativa em seus relatos, além de ser muito marcada pela intencionalidade na abordagem dos acontecimentos. O livro, portanto, é de pouca valia e de difícil recomendação. E nem adiantaria recomendar mesmo, pois, afinal, o aparecidense vem atingindo sua maioridade e aprendendo a torcer o nariz para aquilo que lhes tentam empurrar goela abaixo, a exemplo da escrita daqueles que, talvez por gozarem de influência social e política, se julgam os fiéis depositários da memória da cidade.


Gedeon Campos

Crônica: Poluição sonora

Outro dia sonhei que prestigiava os brilhos de centenas de vaga-lumes, em estágio de pisca-apaga a famosa luz abdominal, ao som de uma orquestra de grilos, sapos e corujas. De repente as bocas dos grilos ficaram gigantescas e os sapos desinflaram seus papos em gritos roucos nos microfones. Uma coruja aumentou o volume das caixas de som e rodopiou continuamente sua cabeça em 360 graus, sem fazer a contorção contrária, como na cena famigerada do filme O Exorcista. Os grilos gargalhavam para estourar ouvidos e dançavam no frenesi da boate, com o auxílio das luzes piscadas pelos pirilampos.
Acordei com as gargalhadas de ébrios transeuntes e com os únicos três acordes em todas as músicas de um CD de forrobodó. Nas duas esquinas do quarteirão em que moro há seis bares, destes que vendem espetinhos e bebidas até o raiar do sol.
Lembrei-me de um texto do professor e bandolinista Euler Amorim garantindo indenização civil aos prejudicados pelos barulhos excessivos, além de existir o crime de perturbação ao sossego público e as multas previstas no Código de Trânsito Brasileiro e de Postura Municipal.
É que estamos na era do barulho, em constante competição: o ganhador é quem grita mais na praça, na feira; as lojas disputam, lado a lado, quem prevalece no ouvido de um cliente. O economista Cláudio de Moura escreveu um artigo dizendo que o baixo crescimento da economia também é reflexo do barulho excessivo.
Enquanto isso, estão nas ruas os carros de som, os autofalantes, as frenagens, buzinas, os sinais de intervalos em escolas, os gritos, os latidos, as motos e os escapamentos furados invocando balburdia. Há o anual concurso de barulho de carros, os “tunnings”, de sons, de motos etc. Outro dia vi uma caminhoneta cujo investimento em equipamentos de som foi de 45 mil reais! E os trios elétricos?
Se a nossa tolerância aos 65 decibéis máximos for quebrada – o que acontece no dia-a-dia – pode causar até mesmo infarto e surdez. As leis são desrespeitadas até mesmo pelos legisladores (veja nas proximidades das eleições o estardalhaço que vira cada pedaço de terra habitada nas cidades!); o que fazer para garantir o direito ao silêncio? Uma campanha obrigatória de educação em massa?
Agora conto uma pequena ficção, lembrando que toda coincidência é mera e flagela a demência de quem assemelha:
Um famoso e antigo político de renome, e velhos costumes de angariar votos comprados, de nome Juju Nelson, velho conhecido por liderar o apedrejamento do caixão da famosa vítima do césio 137, Leide das Neves, famoso também por solicitar inúmeros pedidos de estatísticas a diversos órgãos, para fingir que trabalha numa árdua pesquisa legislativa, além de entrar com inúmeros processos contra outros políticos por uso irregular de dinheiro público nas propagandas, é proprietário de uma fazenda que diuturnamente era sede de eventos familiares, comemorações políticas, palestras religiosas e festas “raves”. Um lugar misto onde o sol se misturava com a lua e o frenesi constante deixava moradores surdos e de olhos fundos. Por milagre, num dos últimos encontros religiosos, mais precisamente um retiro espiritual, o legislador teve uma visão: Jesus Cristo desceu do céu sorrindo e com o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio. Juju entendeu o recado e nunca mais aquela terra foi sede de nenhum evento, mesmo político. A paz reinou imperiosa, até mesmo os grilos, os sapos e as corujas respeitaram o pedido de Jesus. Algo fabuloso, nenhum ruído sequer. De repente, aparece uma combi silenciosa, andando lentamente, e nas proximidades gritou: “óia pamonhaaaaaaaa!”.

Leonardo Teixeira
Escritor e autor do livro "Afinadores de piano"

quarta-feira, 4 de março de 2009

Crônica: Academia sobre rodas

Movimentação intensa, bastante vivenciada no terminal Novo Mundo, às 17 horas, no ponto de ônibus para a cidade de Senador Canedo. Os que saboreavam sorvete trataram logo de consumi-lo e quem comia espetinho fez o mesmo. Levantei-me depressa do pé da grade divisória e, de tão cansado, até me dispus a levar algumas cotoveladas em troca de um banco qualquer. Porém, só me sobraram cotoveladas e pontapés, porque as cadeiras foram ocupadas num piscar de olhos.
Mesmo assim, entre o "bolo da massa compacta", tive tempo para contemplar um jovem que continuava com seu sorvete empunhado, apenas o levantando para não esfregá-lo em alguém. O rapaz foi abrindo caminho e eu então aproveitei o vácuo! O sorvete derretia rapidamente, mas ele, para não perder uma única gota do caldo que escorria pela mão, resolveu abaixar o braço repetidas vezes para lambê-lo. Pensei: este tipo de flexão de braço é praticado nas melhores academias.
Dessa forma, entramos no veículo e, logo na saída do terminal, vi que atirava o sorvete pela janela, porque precisava das duas mãos para se segurar. Naquela ocasião, o ônibus foi manobrado para um lado e nós fomos atirados para outro. Nisto o jovem, como um halterofilista, procurava sustentar seus quase oitenta quilos de massa corporal.
Dez minutos de viagem, começa um chuvisco. Com isso, os passageiros levantaram-se para fechar os vidros, num movimento harmonioso, como numa equipe de nado sincronizado. Em pouco, o ar ficaria grosso e pesado no interior do veículo, um exercício bom para mergulhadores que necessitam sobreviver com limitações de oxigênio. O pior é que, da frente, um atleta resolveu dar o “tiro de misericórdia”. Antes da “catraca”, o malandro já sorria debochadamente. Logo, a onda de riso chegaria ao “fundão” numa competição de gargalhadas, ocasião em que alguém assume o papel de treinador e grita:


- Respirem fundo, pessoal, que é para acabar logo o aroma!
Tão logo a chuva passou, escutei uma sinfonia de vozes fracas e sufocadas:
- Abre logo os vidros se não nós vamos morrer!

Então, os passageiros, sincronicamente, levantaram os braços e, de uma só vez, abriram as janelas.
Eu, na ocasião, cheguei até a ponderar que esses exercícios seriam mesmo ideais para mim. Afinal, os quebra-molas nos fazem pular. Nas curvas somos empurrados para os lados e as depressões nos forçam a muitas flexões. Tudo isso, somado com as corridinhas costumeiras para embarcar em ônibus lotados, nos causam um bem danado!

Claudeci Ferreira de Andrade
Senador Canedo

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Professor, pesquisador nas áreas de literatura, linguagens, imagens e fatos sociais