quarta-feira, 30 de junho de 2010

Olá pessoas... vejam o trailler do Tropa de Elite


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

PLANO DE AULA DO 3º ANO DO ENSINO MÉDIO

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O DISCURSO JORNALÍSTICO DE APARECIDA DE GOIÂNIA: UMA LEITURA DO JORNAL "O PARLAMENTO" À LUZ DAS TEORIAS DE ANÁLISE DO DISCURSO

Gedeon Pereira Campos (mestre em Letras e Linguística FL/UFG)

A julgar pelo título deste artigo, muitos daqueles que conhecem a produção jornalística de Aparecida de Goiânia se perguntarão se de fato seria mesmo necessário dispormo-nos de tempo e estudo na confecção de semelhante ensaio. Por que razão alguém se ocuparia em provar lingüisticamente uma verdade que não escaparia nem mesmo ao mais desavisado olhar? Seria necessário recorrer à lingüística e à Análise do Discurso para se chegar a uma compreensão sobre o posicionamento ideológico do jornal O Parlamento? Afinal, a que conclusão chegará o presente estudo senão àquela que chegaria o mais comum dos leitores?

Qualquer apontamento desta natureza tem valor fundamental. Mas é necessário entender que um objeto de ciência, sobretudo em se tratando de materialidade empírica, pode também residir comodamente nas coisas óbvias. Além do mais, ainda que o senso comum nos possa levar, até mais tranqüilamente, ao mesmo destino que a ciência, é importante que um estudo, caso este queira receber a chancela de saber científico, cumpra um ritual percorrendo caminhos autorizados e servindo-se de métodos que traduzam as vontades do saber dessa mesma comunidade científica. Esta é a razão porque o pesquisador em alguns casos se debruça sobre situações corriqueiras, cujas obviedades bem poderiam ser definidas por soluções menores e pouco complexas, na maior parte das vezes ligadas ao saber comum.

No centro de nossa análise será colocada uma discussão que pretendemos retomá-la futuramente com maior amplitude para entender o comportamento da chamada “imprensa menor”, que muitas vezes se mascara de jornalismo alternativo e de distribuição gratuita. É preciso questionar o papel de determinados veículos de comunicação, pois é do conhecimento geral que grande parte dos jornais de distribuição gratuita, multiplicados pelo interior do país, tem comportamento nocivo à sociedade, porque antes desinforma e aliena o cidadão. O problema nasce principalmente da intencional precariedade editorial, o que resvala em conteúdo de baixa qualidade, determinado mais pelos excessos de positividade das informações produzidas.

Com esse argumento introduzimos nosso artigo cujo objetivo é o de compreender, pela prática, quais condições psico-sociais estariam orientando os comportamentos lingüísticos dos sujeitos que compõem uma cena linguageira específica, elaborada pelo discurso do campo jornalístico. Queremos entender como estes sujeitos estão articulados pela linguagem, pois sabemos de antemão que os discursos são governados por formações ideológicas (BRANDÃO, 2004, p. 47) e são elas que, vinculadas ao “desejo de verdade” e ao “poder”, relacionam-se às situações de produção discursiva para determinar o que e como será dito um acontecimento.

As cenas linguageiras que transcrevemos abaixo representam a materialidade de nossa pesquisa. A partir delas exercitaremos a compreensão de que o texto jornalístico nem sempre pode ser considerado como instrumento de comunicação no sentido pleno da palavra. Muito ao contrário, não raras vezes, ele é usado para dominar acontecimentos aleatórios ou para esquivar uma pesada e temível materialidade (FOUCAULT, 2000, p. 9) através das interdições inerentes ao discurso.

Vejamos, portanto, como, servindo-nos das teorias de análise do discurso, dos estudos de ideologia e da filosofia da linguagem, poderemos compreender um acontecimento que circulou em Aparecida de Goiânia na data de 02 a 08 de maio de 2005 e que, aqui, damos a conhecer da seguinte maneira:

O FATO:

Durante o período que compreende o dia 19 a 25 de abril de 2005, os 17 vereadores da cidade de Aparecida de Goiânia (GO) passaram na cidade de Natal (RN) por ocasião de um congresso para vereadores. Mas na comitiva dos referidos parlamentares incluíram-se parentes e funcionários da Câmara Municipal, alterando o número para 53 pessoas[1].

A REPERCUSSÃO (na imprensa):

APARECIDA DE GOIÂNIA

Câmara viaja para Nordeste Para participar de congresso 17 vereadores da cidade ficarão seis dias em Natal (RN), com familiares (O Popular, Goiânia, ano 67, N. 18.738, p. 10, 2005)

APARECIDA DE GOIÂNIA

Inquérito investigará viagem de vereadores Ministério Público quer saber se há irregularidade na ida dos 17 vereadores acompanhados de parentes ao Nordeste (O Popular, Goiânia, ano 67, N.18.739, p. 10, 2005)

VIAGEM: OS RETRATOS DA VERGONHA

Feriadão para vereadores de Aparecida vira manchete em Natal; congresso brasileiro reúne apenas 50 pessoas (Diário da Manhã, Goiânia, ano 26, N. 6.379, p. 5, 2005)

VIAGEM DE VEREADORES

Câmara de Aparecida é pichada Frases como “Aparecida não merece” e “Natal só em dezembro” foram escritas no prédio, num ato considerado ilegal por tratar-se de vandalismo (O Popular, Goiânia, ano 67, N.18.741, p. 9, 2005)

A REPERCUSSÃO (entre a população):

“– Fico indignado. A Câmara acabou de ser eleita e mostra que é igual a todas as outras. Não era caso de mandar todos, mas um grupo pequeno”. (Antônio Silvio Moraes, 39 anos, autônomo).

“– Está tudo errado. Enquanto o povo não tem asfalto, posto de saúde e ônibus, os vereadores gastam além com as viagens. Deve haver punição”. (Enilda Neves Duarte, 20 anos, operadora de caixa).

“– É uma vergonha para o município de Aparecida. Se levaram as esposas, tem de ver agora se pagaram com o dinheiro da Câmara”. (Rafael Viana de Sousa, 24 anos, balconista).

“– A suspeita de que os parentes ganharam com isso tem de ser investigada. Não é adequado que todos viagem com verba da Câmara”. (Rosana Rosa Rodrigues, 30 anos, dona-de-casa)

“– Isso não é coisa que se faça com o dinheiro do povo, principalmente quando falta tudo em Aparecida”. (Michele Morgana de Araújo, 30 anos, vendedora)

“– Dinheiro está cada vez mais difícil, até para o governo. Eles têm o direito de divertimento, mas desde que o prejuízo não seja pago pelo povo”. (José Vitor Figueiredo, 54 anos, ambulante)

A DEFESA:

Editorial de O PARLAMENTO

CONGRESSO DE NATAL SENSACIONALISMO SEM SE CONHECER A LEGALIDADE (Hélio Alves)

Após a constatação que a iniciativa dos vereadores aparecidenses, ao participar de um congresso sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal, em Natal, no Rio Grande do Norte foi aparada (sic) por um dispositivo da Lei Orgânica do Município, onde se prevê que o poder legislativo deve investir na qualificação dos vereadores, incentivando a participação em congressos e encontros para a atualização ou aquisição de novos conhecimentos, fiquei ainda mais a vontade para expor minha indignação com a farra feita pela imprensa da capital em cima do fato.

Não vejo crime algum em um grupo de parlamentar reconhecer a deficiência de domínio a respeito de um determinado assunto, como por exemplo a polêmica Lei de Responsabilidade Fiscal, que enrolou muitos nomes de proa da política brasileira e aqui mesmo, bem pertinho, onde foi feito um escarcéu em cima dos vereadores aparecidenses por terem ido a Natal participar de um congresso para obterem um maior domínio da questão, o ex-prefeito Pedro Wilson, tido e havido como zeloso, fundador do PT em Goiás, não deu conta de cumprir o que determina a LRF e acabou tendo de reconhecer isso na imprensa. O resultado foi um viaduto que liga nada a lugar algum, inaugurado sem ser concluído, no cruzamento da Av. República do Líbano com a Av. Independência e o mês de dezembro deixado sem a dotação orçamentária para pagar o funcionalismo público municipal, entre outras coisas mais. No que diz respeito ao funcionalismo a coisa ficou tão complicada que mesmo demonstrando interesse pelo pagamento, para evitar o desgaste logo no início da administração, o prefeito Íris Rezende não podia fazê-lo, já que a LRF proíbe que seja feito o pagamento de exercícios anteriores, com a movimentação financeira do ano em curso. Foi aquela confusão e como confusão é com o PT mesmo, a turma cuidou logo de organizar greve na saúde e educação, tentando trucidar o atual prefeito, tapando o sol com a peneira para livrar a cara de Pedro Wilson.

Foram as confusões desta Lei que levaram os vereadores aparecidenses entender que todo o grupo precisava aproveitar o congresso de Natal, para não continuar aprovando e fiscalizando orçamento, sem o conhecimento do regulamento fiscal. A Lei é dura, pelo menos no papel. Diante disso, numa avaliação imparcial, alheia ao sensacionalismo, temos antes de aplaudir a iniciativa dos vereadores aparecidenses. Mas não foi assim. Gente que não conhece nem a realidade dos fatos, nem a importância da LRF acabou falando irresponsavelmente e isso gerou uma série de conseqüências.

O fato de Goiânia ter enviado apenas dois vereadores não significa nada para o povo aparecidense. Estamos em Aparecida e não temos nada haver com as posturas originárias da Câmara da Capital. Se lá é possível fraudar o INSS e desviar mais de sete milhões dos cofres públicos para contas de corruptos, não significa que temos de agir assim também e não temos agido, felizmente. Se lá não se deu importância ao congresso mesmo com o exemplo de Pedro Wilson, é um problema dos vereadores de lá. O fato é que os vereadores aparecidenses buscaram o conhecimento e foram crucificados por isso e aí está uma grande injustiça. Temos uma Câmara muito parecida com o nosso povo, formada por homens humildes, com pouca escolaridade e isso não diminui em nada a capacidade parlamentar do grupo. Escolaridade não é tudo. Antes vem a honestidade, a inteligência, a boa intenção, a capacidade para fazer e esta exige conhecimento e foi esse que o grupo foi buscar em Natal. Se cada um dos vereadores quis levar sua esposa e se ele pôde pagar a conta dela, isso diz respeito a ele. Em quantos apartamentos eles ficaram também não tem importância, desde que a Câmara pague o valor correspondente à hospedagem dos vereadores e o restante seja pago do bolso do parlamentar a questão também passa a ser um problema dele. Se a humildade de berço dos vereadores fez com que o grupo achasse que aproveitar a ida a uma cidade litorânea é uma boa oportunidade para levar a esposa para conhecer a praia, já que a programação do congresso abria espaço para o descanso e eles quiseram aproveitar esse espaço ao lado dela, também não é motivo para sensacionalismo. O fato é que houve um grande desrespeito, se falou com baba escorrendo pela boca de um fato absolutamente normal, sem levar em consideração a legalidade dos fatos. Agora já estão falando que isto não vai dar em nada e é lógico que não vai mesmo, afinal não houve nenhuma irregularidade e a justiça não vai mesmo punir um grupo de parlamentares por ter buscado o conhecimento. É bom que o povo aparecidense saiba disso.

(O Parlamento, Aparecida de Goiânia, ano IX , N. 330, p. 2, 2005)

ANÁLISE DO DISCURSO JORNALÍSTICO DE "O PARLAMENTO"

O primeiro comportamento que adotamos para a leitura do editorial CONGRESSO DE NATAL: SENSACIONALISMO SEM SE CONHECER A LEGALIDADE é o de colocar em crise parte das concepções saussurianas. A idéia de que o signo é uma coisa dupla, constituída da união de dois termos (SAUSSURE, 1999, p. 79), sendo eles Conceito e Imagem acústica, não é suficiente para que, através dele, se tenha uma compreensão do discurso social que se aproxime do real. Porque o signo sendo arbitrário normalmente é permeado pelas intenções dos sujeitos, inseridos em determinadas formações discursivas. O mais correto é considerar que a materialidade ideológica, que reveste os signos e que antecede o jogo linguageiro, contribui para que o sentido de uma palavra não seja dado termo a termo. Assim a compreensão textual do editorial salta do nível gramatical e do reconhecimento lexical, passando a alojar-se num plano que não é exatamente o da frase, o que faz com que o ato de leitura seja uma prática de mobilização de saberes muito diversos, situação em que o leitor deve fazer hipóteses, raciocinar construindo um contexto que não é um dado pré-estabelecido e estável (MAINGUENEAU, 2001, p. 20).

Uma segunda atitude foi a de empregar o esquema comunicacional proposto por Roman Jakobson. Porém, muito embora seus estudos de Lingüística e Comunicação tenham contribuído inegavelmente para a compreensão textual, no caso específico do editorial de O Parlamento, é necessário impor-lhe sinceras restrições por Jakobson supor uma relação aparentemente pacífica entre remetente e destinatário. O seu esquema comunicacional considera que a mensagem enviada por um sujeito-emissor, em se tratando de código comum entre as partes, é perfeitamente recuperada por um sujeito-receptor. Portanto, a compreensão seria um produto fácil que brotaria de um contacto, de um canal físico e de uma conexão psicológica entre remetente e destinatário (JAKOBSON, 2004, p. 123), que capacitam a ambos a entrar e a permanecer em comunicação.

Mas o processo de compreensão, conforme entendemos, não é tão simples assim. A “mensagem”, sobre a qual repousa valor semelhante ao que é atribuído ao vocábulo “sentido” para a Análise do Discurso, não está fixada a priori como essência das palavras (ORLANDI, 1996, p. 27) de forma que possa sair de um e ser recuperada por outro. Além disso, tampouco devemos considerar o remetente como alguém que envia uma mensagem com pretensões de objetividade. O que ele faz, muitas vezes, é remeter a um conteúdo perfeitamente transparente – enquanto estrutura, daí seu efeito de evidência, sua ilusão referencial (Ibidem, p. 32) – e [como acontecimento] profundamente opaco (PÊCHEUX, 1997, p. 20). O que na verdade é enviado ao receptor não é o sentido pronto e acabado, mas “efeitos de sentido” a ser ou não recuperados no seu destino. Tais pressupostos nos fazem concluir que o leitor, e aqui colocamos o de O Parlamento, uma vez envolvido pelo desejo das “coisas a saber” nunca deve procurá-las no limite das relações pragmáticas que envolvem destinador e destinatário. Muito ao contrário, é necessário que este vá além do arranjo sintático para compreender quais condições entrariam em “jogo” numa determinada situação linguageira, o que nos faz lembrar a noção de “contrato”, desenvolvida por Charaudeau (1995, p. 103-110), em “Une analyse sémiolingüistique du discours”. Ali o autor, para quem o ato linguageiro tem um aspecto duplo e uma natureza recíproca, prevê que a compreensão de um discurso tem como constituinte a análise das condições geradoras desse mesmo discurso, em resposta a quelles conditions pour quels comportements langagiers possibles, et quels comportements langagiers effectifs pour quelles conditions (loc. cit., p. 104) [2].

O terceiro passo de nosso estudo foi compreender que, no editorial de O Parlamento, a palavra não pode ser considerada como expressão no sentido da crença comum entre certas concepções de linguagem. A partir daí descartamos a noção de texto como comunicação, como algo composto por idéias e conteúdos transparentes e passamos a investigar no interior do próprio discurso suas contradições e as marcas que nos levassem a compreender melhor a posição dos sujeitos de linguagem nas suas relações com as formações discursivas e inseridos numa determinada situação de produção.

As cenas de que nos servimos para o presente estudo, denominadas como fato, repercussão e defesa, permitem-nos sublinhar o quanto o comportamento linguageiro de um, aquele que articula a defesa, está orientado e reorientado em função do comportamento de outro, seja este outro aquele que trabalha o acontecimento, ou o sujeito sensível ao fato em quem se dá a repercussão. A escolha do editorial e dos títulos das matérias antecedentes indica-nos que estamos diante de uma relação conflitante e contraditória do discurso de um mesmo campo discursivo – o campo do discurso jornalístico – muito embora o conflito seja produto de comunidades discursivas antagônicas (jornal de circulação gratuita x jornal de circulação comercial; jornal de Aparecida de Goiânia x jornal da Capital). Ali no editorial, a linguagem trabalha forçosamente para justificar como natural as ações dos vereadores de Aparecida de Goiânia, atacando os discursos oponentes e deles se defendendo, numa visível tentativa de reelaborar os princípios de causalidade da materialidade histórica que compõe o tema da “viagem”. Para isso, as formações discursivas estão colocadas em jogo, como nos orienta Ricoeur (1988, p. 68), dada a necessidade, para um grupo social, de conferir-se [para si e para o outro] uma imagem de si mesmo.

A função primordial da qual se ocupa o editorial é a de fazer-se como resposta às matérias jornalísticas da imprensa da Capital. É, por assim dizer, um disputatio, pois a palavra é usada não para comunicar mas para acuar um parceiro a se contradizer para reduzi-lo, eliminá-lo, anulá-lo (BARTHES, 2001, p. 38). O disputatio é inerente à linguagem, comportamento retórico comum quando são confrontados os discursos de comunidades discursivas específicas ou contraditórias. No caso particular do discurso jornalístico, como conferiremos mais adiante, o confronto linguageiro acontece muitas vezes em razão dos sujeitos apropriarem-se da realidade puramente centrada no olhar humano e no “desejo de verdade” que move esses mesmos sujeitos. A finalidade muitas vezes é a de criar aparências, ou seja, de conferir validade ao que é dito à revelia de qualquer respaldo, pois a coerção [no discurso] passa a ser par constante da verdade (PIMENTA, 1999, p. 105).

Apesar do editorial realçar o conflito entre a imprensa da Capital e a de Aparecida de Goiânia, o alvo do discurso é o sujeito leitor aparecidense a quem o enunciador quer convencer vencendo os argumentos do opositor. Neste caso, não podemos pensar que enunciador e co-enunciador, sujeitos A e B da linguagem, sejam figuras objetivas e singulares, pois estes não representam pessoas empíricas, nem tampouco o que o sujeito de linguagem A professa decorre de sua voz solitária. Muito ao contrário, A e B designam lugares determinados na estrutura de uma formação social (PÊCHEUX, 1990, p. 82), sendo que o que A materializa pela linguagem não decorre de si, mas da formação ideológica na qual este se encontra inserido por condição de assujeitamento. Portanto, no editorial de O Parlamento o sujeito de linguagem A, ou seja o enunciador, não é Hélio Alves. Trata-se, segundo Ducrot (apud SOUZA, 2002, p. 16), de um lugar social de onde o dizer o constitui como um enunciador.

O suporte de que se serve o discurso é o jornal impresso de circulação semanal. O lócus do tema é Aparecida de Goiânia e a inventio, o acontecimento trabalhado sobre a viagem dos vereadores à cidade de Natal (RN). Através da inventio, submetida à technè rhetorikè do discurso, o sujeito de linguagem A vai articular as palavras no editorial com vistas a convencer e comover o enunciatário. A idéia é justamente esta seqüência: “vencer” e “mover” o sujeito leitor em nome de uma determinada ordem social. O enunciador, por isso, tem uma posição assumida. Logo que se apresenta no primeiro parágrafo, este credita a si a “verdade” dos fatos atribuindo seu comportamento aos resultados de sua própria pesquisa, a análise de um dispositivo legal que teria antecipado a confecção textual. A viagem dos vereadores estaria, pois, amparada por uma Lei – o exemplum do qual se serve – razão pela qual não haveria motivos para aquilo que ele determina como “farra” da imprensa da Capital “em cima do fato”.

Com isso, o enunciador dá ao discurso um tom legalista. Em nenhum momento demonstra interesse em discutir a Lei em si. Para suprir o vazio que decorre do fato da legalidade não suplantar o ético nem o justo, põe-se a desqualificar o adversário, numa necessidade do jogo estratégico, porque o outro é constituído do mesmo (...), mas deformado, invertido, [é] conseqüentemente insuportável (MAINGUENEAU, 1989, p. 125).

A desqualificação do adversário aparece, de imediato, subentendida no título da matéria. A imprensa da capital seria então “sensacionalista”, ora porque desconhecia a legalidade dos fatos, ora porque falava apaixonadamente “com baba escorrendo pela boca de um fato absolutamente normal”. Neste trecho, ergue-se também uma metáfora, porque o signo “baba”, da maneira que está colocado no texto, desponta-se como um índice de loucura vulgarmente determinado pelo senso comum. Logo, o produto dessa similaridade seria uma alegoria a misturar numa só figura – a do adversário – a imagem do “jornalista”, a do “cão hidrófobo” e a do “louco”, sendo que as duas últimas características sobredeterminariam a primeira.

O comportamento de degenerar a imagem do oponente conferindo-lhe a condição de “louco” dá-se porque a “segregação da loucura” compõe um dos três sistemas de exclusão que atingem o discurso, ao lado da “palavra proibida” e da “vontade de verdade”. Assim, se desejamos vencer o outro diante dos olhos de tantos outros, queimá-lo em praça pública, nada mais fácil do que lhe atribuindo a condição de louco para em seguida excluí-lo, porque a palavra do louco não deve ser ouvida como uma palavra de verdade, pois o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros (FOUCAULT, 2000, p. 10).

Uma vez desqualificado o adversário, é momento então de se mostrar convincente aos olhos do leitor. É preciso apontar as razões pelas quais aquilo que é “dito” deve ser tomado como verdadeiro, mesmo que este seja um já-dito marcado pela ideologia que, por sua vez, é aquilo que os homens dizem, se imaginam, se representam (...), aquilo que nos faz tomar a imagem pelo real, o reflexo pelo original (RICOEUR, 1988, p. 73).

Para concretizar seu objetivo – vencer e mover – o enunciador procura convencer o leitor da necessidade da viagem dos vereadores. Por isso, ele estabelece implicações de natureza aparentemente lógica envolvendo causa e conseqüência de forma imediata entre “viagem dos vereadores” e “benefício social”. A idéia é a de fortalecer o argumento de que o congresso de Natal seria mesmo necessário “para não continuar (sic) aprovando e fiscalizando orçamento sem o conhecimento do regulamento fiscal”. Sobre o comportamento dos parlamentares, o enunciador vai mais além, tece elogios e afirma que o aparecidense tem “antes de aplaudir”, porque eles, os vereadores, “buscaram o conhecimento e foram crucificados”. Assim, ele encerra a frase transformando qualquer julgamento em uma temeridade porque este bem poderia ser “uma grande injustiça”.

Com relação à evocação do enunciatário a assumir o comportamento desejado pelo enunciador, selecionamos alguns trechos que nos indicam as estratégias de persuasão das quais este se serve e sobre elas teceremos observações que cremos serem pertinentes. Primeiro porque o texto tem a marca do tom imperativo: "temos antes de aplaudir a iniciativa dos vereadores aparecidenses”; segundo, porque, neste ponto, ocorre mudança da pessoa do discurso. A forma pronominal eu do início do texto: “[eu] fiquei ainda mais a vontade para expor minha indignação” dá lugar ao nós: “[nós] temos antes de aplaudir a iniciativa dos vereadores aparecidenses”, configurando-se num performativo explícito do modo imperativo como se fosse uma ordem dada pela primeira pessoa do plural. Mas neste caso, é preciso entender que a primeira e a segunda pessoas do plural não são simples pluralização da primeira e da segunda do singular (FIORIN, 2001, p. 84). Na verdade, deduzimos que, na simples relação de troca da pessoa do discurso, é muito provável que exista uma carga de sentido a ser semantizado pelo leitor, porque a intenção do enunciador é a de dar a ilusão de se ter ali a voz de um eu somada a de um não-eu, formando o nós do enunciado imperando, por sua vez, uma ordem comum entre eles. Assim, o jornalista, por uma representação impessoal, agora se somaria às demais vozes populares numa evocação à coletividade para ordenar e cumprir a ordem que ele mesmo estabelece para si e para os outros, todavia maquiada em tom de conselho, um performativo, segundo deduzimos de Austin (1990, p. 66 – 70), porque a ordem está velada numa aparente declaração com a finalidade de, no dizer, construir ações.

A troca da pessoa do discurso é categoricamente uma embreagem da “pessoa subvertida”. Portanto, o uso do nós não está em substituição ao eu, mas ao tu, pois é a este que o enunciador quer convencer a “aplaudir a iniciativa dos vereadores”. Conforme nos orienta Maingueneau (apud FIORIN, 2001, p. 97), trata-se de “comportamento comum quando se fala com crianças que ainda não falam e [também com] animais domésticos”, causando a impressão de igualdade entre enunciador e co-enunciador, como se os dois compartilhassem, ou devessem compartilhar, por uma mesma ordem, de um mesmo juízo.

No trecho, “O fato é que os vereadores aparecidenses buscaram o conhecimento e foram crucificados por isso e aí está uma grande injustiça”, observamos também como o enunciador investe na tentativa de resgatar memórias coletivas de significação histórica, cuja finalidade é a de condenar por antecipação qualquer ação de julgamento dos vereadores de Aparecida de Goiânia. Como se pode observar, o fragmento tem filiação em outro campo discursivo, o da religião, o que confirma que nenhum campo discursivo existe isoladamente (MAINGUENEAU, 1989, p. 117). A palavra “crucificados”, dada assim no plural, é lançada para que o leitor subliminarmente semiotize sobre o referente “vereadores” a imagem de 17 homens de qualidades equivalentes às de Cristo e, assim, parece advertir ao seu leitor de que mais uma vez estaria se reproduzindo na terra a cena do Calvário pela injusta e ingrata incompreensão humana. Haveria, portanto, neste desencadear de imagens um simulacro, pois os vereadores são demonstrados como “humildes”, dotados de “honestidade”, “inteligência”, e “boa intenção”, dentro dos pressupostos cristãos, o que reforça a idéia do sacrifício e da paga do bem – ação de ir buscar o conhecimento para melhor atuar – com o mal – as “calúnias” e a falta de reconhecimento por parte da Imprensa de Goiânia, da Justiça e de Populares. Essa representação, ou imagem construída, sobre os vereadores insere-se no conceito de simulacro por se tratar de uma construção arbitrária.

Por necessidade do jogo persuasivo, o enunciador também explora no texto o conflito espacial. Ele compara, qualifica, vincula lugares a seus protagonizadores políticos. A partir daí, atribui aos vereadores de Aparecida de Goiânia as qualidades positivas, ao passo que os da capital são caracterizados, no seu conjunto e de maneira indireta, pelo fato de “‘fraudar’ o INSS e ‘desviar’ mais de sete milhões dos cofres públicos para contas de corruptos”. Neste caso, a marca do infinitivo verbal, em “fraudar” e “desviar” tem finalidade generalizante, com vistas a coincidir – por não apontar ninguém e ao mesmo tempo se dirigir a qualquer um – com o que tenciona expressar o “s” no vocábulo “corruptos”. Isso tende a fortalecer significativamente a argumentação, porque banaliza mais o problema, evita a discriminação dos autores da ação, ao mesmo tempo em que a dilata e a atribui ao coletivo das organizações políticas da Capital. O comportamento, sendo ele consciente ou não, tem sua força, uma vez que apontar os fraudadores não interessa ao enunciador, pois é dimensionar o problema, é delimitar a trama, por assim dizer, é conseqüentemente diminuir a força do argumento.

As embreagens e as marcas de heterogeneidade constitutiva são características presentes no editorial, as quais nos dão visibilidade da posição ideológica do enunciador, calcanhar de Aquiles em cuja direção destinamos as setas do presente estudo. No fragmento, “Se lá é possível fraudar o INSS e desviar mais de sete milhões dos cofres públicos para contas de corruptos, não significa que temos de agir assim também e não temos agido, felizmente”, temos um enunciador visivelmente empolgado que se dirige ao leitor na pessoa do nós. Entretanto, não há semelhança deste nós com o que vimos em “temos antes que aplaudir” dado no exemplo anterior, porque agora o nós não se nivela ao tu. Mas também neste caso, o nós não é um nós verdadeiro e sim uma terceira pessoa indeterminada (FIORIN, 2001, p. 91). Logo, o pronome, associado a “temos” e à expressão “felizmente”, serve para que o leitor chegue ao outro do discurso, porque na passagem transcrita acima haveria um descentramento do sujeito, o que confirma que todo discurso é constituído por um encaminhamento dialógico, feito de acordos, recusas, conflitos e compromissos (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 68-69). Daí, é possível que vejamos nessa organização contraditória que a voz que ali se expressa é, a um só tempo, a do sujeito enunciador e a do grupo que compõe a sua formação discursiva constituindo se da voz institucional dos vereadores, o que faz com que o jornalista seja apenas este alguém por quem flui o discurso daqueles.

Considerando o que foi exposto até o presente e reforçando nossa busca por apreender o sujeito enunciador na sua formação discursiva, analisaremos a partir de agora como o emissor representa para si a imagem do seu leitor. Embora o leitor do editorial possa ser qualquer um, imaginariamente o leitor instituído pelo enunciador não é outro senão o “povo aparecidense” a quem ele se dirige na última linha do artigo. Na frase “É bom que o povo aparecidense saiba disso”, ocorre embreagem da terceira pessoa pela segunda do singular, de maneira que o referente aparecidense ganha correspondência com o tu, sujeito B, co-enunciador da troca lingüística. Neste caso, o sujeito B acumula, portanto, duas posições no discurso: na condição de pessoa ele é o tu, sujeito da troca verbal, e de não-pessoa é o aparecidense, convertido também na figura do referente (R). Assim, B é assunto e, ao mesmo tempo, a quem se dirige o enunciador.

Ao concluir o texto assegurando que “É bom que o povo aparecidense saiba disso” o sujeito de linguagem A fala ao sujeito de linguagem B de B, porque o leitor antecipado por A é o aparecidense e este coincide com o tu embreado. É como se o enunciador se dirigisse a uma pessoa que ele não constitui como enunciatário, para negar qualquer comensurabilidade com ela (MAINGUENEAU, apud FIORIN, 2001, p. 88). Transformar o interlocutor em referente, da mesma maneira que pode indicar certa reverência da parte do enunciador em relação ao enunciatário, pode também denotar desprezo, pois rebaixa aquele que nem sequer merece que se dirija pessoalmente a ele (BENVENISTE, apud FIORIN, 2001, p. 88) como normalmente ocorre com o tu, segunda pessoa do discurso. No enunciado em questão, A impera para B uma ordem sub-repticiamente acomodada nos interstícios da frase. Todavia, o tom imperativo é suavizado pelo advérbio bom e pela composição do modo subjuntivo verbal “que (...) saiba”, o que faz com que a referida ordem ganhe no plano da sintaxe um caráter de conselho, numa tentativa de mascarar o ethos do enunciador.

De certa maneira podemos considerar que, na relação enunciador-enunciatário, há uma disputa entre a qualidade que A se atribui com aquela que este atribui a B. A qualidade do enunciador é marcada logo de início no “Após a constatação (...) da Lei Orgânica do Município (...) fiquei ainda mais a vontade”, qualidade que não é inerente a B, pois este, na pré-concepção de A, ignora a Lei, razão pela qual tomava a viagem dos vereadores como um ato ilegal.

Portanto, é a partir desse imaginário que o enunciador tem do leitor, de um sujeito de linguagem B desprovido de conhecimentos para compreender uma situação de natureza política, que vai se construindo o discurso, porque este é orientado não em função do enunciador, mas em função do outro da troca comunicacional. Assim, o discurso se constrói em razão de uma finalidade. Mas no processo discursivo as formações imaginárias não são dadas apenas no nível dos sujeitos de linguagem, A e B, enunciador e enunciatário. Existe também uma outra antecipação, a imagem do referente, imagem de R, pois este pertence igualmente às condições de produção (PÊCHEUX, 1990, p. 83) como objeto imaginário e não como realidade física. Assim, o referente não é um dado preciso, mas algo construído a partir de hipóteses histórico-sociais (ORLANDI, 1996, p. 38) com pretensões de refletir ou apreender a exterioridade, o que lhe dá um certo aspecto de evidência.

A imagem do referente, assim a entendemos, é uma projeção antecipada que A faz para si daquilo que este estabelece como discursividade. Trata-se, neste caso, de suprimir a exterioridade para que esta, agora suprimida, possa intervir na textualidade, recompondo a exterioridade pela lógica do discurso, pois é no discurso que o homem produz a realidade com a qual ele está em relação (ibidem). Acreditamos ser isto que faz com que o sujeito forneça para si e para o outro a sua “realidade” como um sistema de evidências e de significações, as quais devem ser aceitas pelo interlocutor, caso se deseje efetivar uma sanção positiva num determinado contrato comunicacional.

Tal pensamento parece rondar o enunciador sempre que este tenciona colocar em prática a sua relação com o discurso. O sujeito de linguagem A busca, a todo o momento, produzir certa impressão de realidade. Isto decorre, principalmente, da relação deste enunciador com a sua formação discursiva, porque esta se assenta na ideologia que, por sua vez, representa a relação imaginária dos indivíduos com as suas condições reais de existência (ALTHUSSER, 1980, p. 77). Daí, em cada ato de leitura, ter-se a necessidade de um esforço interpretativo que nos faça lidar com aquilo que chamamos de não-transparência do discurso e com uma compreensão que não é apenas da ordem textual, mas sobretudo da ordem política.

Logo que se inicia a leitura do editorial de O Parlamento, o leitor é movido pela impressão de que o sujeito de linguagem A falará da imprensa da capital, dos vereadores de Goiânia e de Aparecida de Goiânia, bem como da viagem que estes fizeram a Natal (RN). Mas, como no discurso não é tanto a palavra que importa, mas a maneira como [esta] é explorada (MAINGUENEAU, 1989, p. 124), em primeiro plano, A introduz a sua própria imagem, ou seja, a imagem que este faz para si, de alguém autorizado, que fala amparado nos pressupostos legais, pois pretende causar uma boa impressão de A e ganhar a credibilidade de B.

Na seqüência, a referência passa a ser a “imprensa da capital”, mas esta é de fato apenas a imagem de R, ou seja, a imagem que A faz de R para si e para o outro. E assim como A e B não devem ser confundidos com as pessoas reais do autor e do leitor não se deve confundir imagem de R com o dado real preexistente ao texto. Brota daí a necessidade de um olhar desconfiado do leitor para esquivar-se das aparências dadas na superfície textual, porque é natural em qualquer discurso, e este não está a salvo, ser mediado por forte dose de coerção. Isto faz com que o enunciador de um discurso, para esquivar sua pesada e temível materialidade, aproprie-se do dado real preexistente. A partir daí, ele o reelabora como acontecimento entrecruzando proposições de aparência logicamente estável, susceptível de resposta unívoca (...) [mas por] formulações irremediavelmente equívocas (PÊCHEUX, 1997, p. 28). Para este fim, serve-se dos elementos próprios da ideologia, porque esta tem por função mascarar a argumentação para produzir o efeito da evidência e da unidade, sustentando sobre o já dito os sentidos institucionalizados, admitidos como naturais (ORLANDI, 1996, p. 31).

O segundo referente é composto pelos parlamentares de Aparecida de Goiânia. No que concerne a estes, na concepção de A, trata-se de homens honestos, ocupados com a causa pública, injustiçados por serem incapazes de cometer irregularidades. No momento em que o enunciador os qualifica, introduz o terceiro referente que são os vereadores da Capital cujas características negativas são dadas puramente para reforçar os traços positivos dos parlamentares de Aparecida. A Câmara da Capital seria composta de corruptos, enquanto a de Aparecida de Goiânia de homens honestos, humildes de berço, com pouca escolaridade e, “como escolaridade não é tudo”, dotados também de “inteligência, boa intenção e capacidade para fazer”. Além da exaustiva adjetivação e da composição da imagem dos vereadores como imagem equivalente a de Cristo, porque os vereadores aparecidenses estariam sendo crucificados, o parlamentar de Aparecida tem suas qualidades realçadas também por ser a imagem de um parlamentar romântico e fiel: é aquele que não leva outra pessoa senão a própria esposa para conhecer a praia e ao lado de quem passará durante o feriado e também nos intervalos do congresso. Há nisto um princípio de discurso não apenas de ordem política, mas também de tom moralista. Seria uma vontade romântica que teria levado os vereadores a viajarem acompanhados das esposas, e não de outras figuras, portanto um atenuante para qualquer desmedida, ainda que A não admita nenhuma falta no processo.

Uma outra maneira de buscar apreender o discurso na sua amplitude, e que aqui lançamos mão, é pela investigação de como esse acontecimento é dito pelo enunciador ao leitor. Quanto a isto, observamos que o editorial de O Parlamento parte de uma materialidade, que é a viagem, e é no âmbito desta materialidade que se efetiva o acontecimento na condição de efeito. Mas, afinal, qual a relação da viagem, em si, com a viagem que é referente no editorial? Existe correspondência termo a termo entre a materialidade dos fatos e o acontecimento? Para elucidar o problema bem poderemos empreender o seguinte raciocínio: façamos da viagem uma “imagem”, sobre a qual depositaremos o nosso olhar na busca de um sentido. Daí, vamos entender que o sentido da imagem não emana exclusivamente dela, mas sobretudo do olhar lançado sobre ela. O sentido não estaria, portanto, imanente na própria imagem mas na maneira como esta fosse concebida como verdade pelos sujeitos de uma formação discursiva. Partindo desse raciocínio, fica mais fácil entender que o discurso não é um reflexo do real, mas algo que pode também refratar a realidade. A idéia do enunciador é a de dar um contorno diferente para a materialidade, eliminando os perigos através do discurso. Esse comportamento é comum em qualquer momento, em qualquer lugar, porque em toda sociedade a produção do discurso é controlada e, ao mesmo tempo, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos (FOUCAULT, 2000, p. 9). E, por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder (ibidem, p. 10), o que desvela as relações promíscuas dos Aparelhos Ideológicos de Estado, sobretudo dos veículos de informação, com as estruturas que compõem o governo. Portanto, é muito possível que a materialidade de um determinado discurso possa ser até mesmo algo invertido daquilo que nos é oferecido como acontecimento ou, na melhor das hipóteses, este estará sempre marcado por graus de opacidade.

Podemos também chegar à compreensão do editorial de O Parlamento apropriando-nos de passagens que marcam as contradições presentes no discurso. Uma delas está no autor querer incutir no leitor a idéia de que, estando a matéria assinada por Hélio Alves e introduzida por um eu expressivo, e por se tratar de formulação discursiva particular, resida no plano textual a palavra única e exclusiva do enunciador. Em passagens anteriores já colocamos sob suspeita o trecho “não significa que temos de agir assim também e não temos agido, felizmente”, porque nele temos uma fusão da imagem do emissor nas imagens dos vereadores. Isso nos mostra que é realmente impossível ser a origem de nosso discurso porque, como nos ensina Bakhtin (1981, p. 142 – 152), todo discurso é recortado pelo discurso de outrem que, por sua vez, governa a atividade mental do enunciador assumindo a forma de um discurso interior. A voz do sujeito passa a ser dada, portanto, pela sua relação com outras vozes, sejam estas de uma mesma formação discursiva, entendemos aqui a relação de pertença do discurso, ou de formação discursiva contraditória. A partir daí entendemos que o enunciador não é uno nem homogêneo, mas ao contrário, um sujeito que divide o espaço discursivo com o outro (BRANDÃO, 2004, p. 60). A palavra que este utiliza para operar no discurso exterior resulta do discurso interior e chega a seu próprio contexto, vinda de outro contexto [no caso, o contexto político, religioso, econômico, moral etc], penetrada pelo sentido dado por outros (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 35 – 36). Estas seriam, portanto, as razões de no trecho grifado acima, não ser possível distinguirmos a real autoria do discurso pois ao mesmo tempo em que parece partir do enunciador é permeado também pelas características vocais dos vereadores e da instituição parlamentar referida no texto.

Mas as contradições não param por aí. A “vontade de verdade” que envolve enunciador e acontecimento abre-nos uma janela de contradições revelando, nas largas brechas do discurso, as marcas ideológicas com as quais este se filia. A primeira falha é realmente a que citamos no parágrafo anterior. A idéia de compor o texto propondo-se a falar partindo de si como a origem do discurso, na qualidade de uma primeira pessoa do singular: “[eu] fiquei ainda mais a vontade para expor minha indignação...”, não é sustentada pelo enunciador que logo passa a utilizar o nós em “[nós] não temos nada haver com as posturas originárias da Câmara da Capital”; e noutro trecho: “[nós]não temos de agir assim também e [nós] não temos agido”. Nestas passagens fica evidente, menos a mudança de um foco enunciativo, e mais a presença das marcas da heterogeneidade discursiva porque, como já o dissemos, Hélio Alves não é apenas o sujeito de quem parte o discurso mas ao mesmo tempo, e isso é muito significativo, o sujeito por quem flui o discurso. Na verdade, a autoria deste deve ser atribuída também aos vereadores, a serviço de quem está o enunciador, segundo o que nos indica o próprio nome do suporte, o semanário O Parlamento.

Um segundo ponto contraditório está no fato de o enunciador dizer que seu discurso resultaria de “avaliação imparcial”. Longe de avaliar os fatos de modo imparcial, o enunciador faz ainda um papel complementar, o seu papel de juiz, quando sentencia que não houve nenhuma irregularidade. O que o enunciador deseja é criar no leitor uma ilusão de objetividade, alegando ser objetivo, neutro e distanciado. Mas como sabemos, a imparcialidade, como diria Bakhtin, é um empreendimento tão impossível quanto impossível é ao homem erguer-se pelos cabelos, porque o simples fato de se designar uma causa, segundo nos explica o estudo da “Lógica e pragmática da causalidade nas ciências do homem”, de Gilles-Gaston Granger (in: DASCAL, 1989, p. 30), já é, por antecipação, assumir um ponto de vista particular sobre a estrutura de conjunto dos fenômenos que movem qualquer acontecimento. Isto faz com que o princípio de causalidade de uma notícia, quer verdadeira ou falsa em sua natureza, seja de valor apenas estratégico.

Uma terceira contradição, e a que nos parece de maior gravidade, reside na proposta do enunciador em pretender discutir a realidade atribuída aos fatos, sobretudo, quando este arremata o texto garantindo ao leitor que não teria havido “nenhuma irregularidade” quanto à viagem dos vereadores à Natal (RN). Não precisamos colocar aqui em descrédito a legalidade dos fatos, pois não é de nosso interesse, mas bem podemos questionar o grau de onisciência deste enunciador, uma vez que esse real para nós tornou-se algo inapreensível, como impossível é de apreender pela linguagem qualquer realidade. É preciso, portanto, que saibamos bem que a realidade conferida no texto nada mais é do que um efeito de aparência criado pela linguagem. A realidade é um dado pretérito ao qual não remontamos senão pelas leis da memória e da linguagem, ainda assim por reflexo ou refração e nunca pelo real. Por isso, podemos imaginar que o enunciador busca para o seu editorial a chancela de uma determinada realidade, o que o faz apropriar-se de um dado real preexistente com vistas a reconstruí-lo pelo seu próprio olhar, recheando o texto de intenções suas e, ao mesmo tempo, do grupo de formação discursiva do qual faz parte. O comportamento é comum principalmente porque as palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios (BAKHTIN, 1981, p. 41).

Enfim, pretendemos encerrar o presente artigo definindo a partir da análise lingüística do editorial o perfil do jornal O Parlamento. E a compreensão a que chegamos é de que este é um veículo cujo discurso está marcado por graus de interdição e opacidade, pois seus agentes não querem ou não podem dizer o que pretendem sem estarem de alguma maneira articulados pelas condições de produção de uma formação discursiva específica. O seu compromisso é com as estruturas de poder do município, sobretudo Poder Legislativo, de quem adota, inclusive, o nome. Por isso ele reelabora o acontecimento que envolve os vereadores e os repassa à sociedade admitindo-o como natural. Neste caso, argumentos como “imparcialidade”, “verdade” e “realidade”, que estão de alguma maneira presentes no texto revelam a relação dos sujeitos do discurso com o “desejo de verdade” e com o “poder”.

Portanto, para o município de Aparecida de Goiânia, O jornal O Parlamento funciona como Aparelho Ideológico de Estado da Informação sendo seu trabalho massivamente prevalente pela ideologia (ALTHUSSER, 1980, p. 47). É esta ideologia que determina o que pode e deve ser dito a partir de uma posição dada numa conjuntura dada (PÊCHEUX, 1988, p. 160), cuja finalidade é a de distorcer o real e passar ao primeiro plano fazendo com que o sujeito leitor tome a imagem pelo real, o reflexo pelo original (RICOEUR, 1988, p. 72-73). As marcas ideológicas vistas ao longo do texto decorrem da necessidade dos discursos serem controlados e orientados para as finalidades de justificar a exploração econômica, a dominação política e, sobretudo, para atribuí-las como naturais. Sua função é, pois, a de incutir nos indivíduos doses cotidianas de nacionalismo, moralismos e outros tantos “ismos” quanto forem necessários à dominação. Afinal, a ideologia é uma construção imaginária e é através da imaginação (KANT apud DERRIDA, 1995, p. 18 e 19), que o homem tem poder para, de algum modo, criar uma segunda natureza com a matéria fornecida pelo real. Por esta razão, mesmo que o jornalista, qualquer que seja ele, se julgue trabalhar sob o manto da tríade objetividade-neutralidade-distanciamento dos fatos terá sempre sua liberdade vigiada dado o grau de interesse das classes sociais que normalmente estão colocadas em jogo. Disto resultam os sujeitos assujeitados e aprisionados pelo dizer, conforme pontuamos nas linhas de O Parlamento.



REFERÊNCIAS

ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. 3. ed. Lisboa: Editorial Presença, 1980.
ALVES, Hélio. Congresso de Natal: sensacionalismo sem se conhecer a legalidade. O Parlamento, Aparecida de Goiânia, 02 a 08 , mai. 2005. Editorial, p. 2.
AUSTIN, J. L. Quando dizer é fazer. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. Entre a transparência e a opacidade: um estudo enunciativo do sentido. Porto alegre: EDIPUCRS, 2004.
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 2. ed. São Paulo: Editora Hucitec, 1981.
BARTHES, Roland. A aventura semiológica. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. 2. ed. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2004.
CHARAUDEAU, Patrick. Une analyse sémiolingüistique du discours. Langages, Paris, 95, n. 117, p. 103-110, mar. 1995.
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1995.
FIORIN, José Luiz. As astúcias da enunciação: as categorias de pessoa, espaço e tempo. 2. ed. São Paulo: Ática, 2001.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 6. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
GRANGER, Gilles-Gaston. Lógica e pragmática da causalidade nas ciências do homem. In: DASCAL, Marcelo (Org). Conhecimento, Linguagem, Ideologia. São Paulo: Perspectiva, 1989.
JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. 22. ed. São Paulo: Cultrix, 2004.
MAINGUENEAU, Dominique. Termos-chave da análise do discurso. Belo-Horizonte: Editora UFMG, 2000. _____. Novas tendências em análise do discurso. Campinas, SP: Pontes, 1989.
_____. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001.
OLIVEIRA, Elaine Vládia. Viagem: Os retratos da vergonha. Diário da Manhã, Goiânia, 24 abr. 2005. Política, p.5.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.
PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. 2. ed. Campinas, SP: Pontes, 1997.
_____. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas, SP: Editora Unicamp, 1988.
_____. Análise automática do discurso. In F. Gadet; T. Hak (Org) Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas, SP: Editora Unicamp, 1990.
PIMENTA, Olímpio. A invenção da verdade. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
RECHE, Carlos Eduardo. Aparecida de Goiânia: Câmara viaja para Nordeste. O Popular, Goiânia, 22 abr. 2005. Política, p. 10.
_____. Aparecida de Goiânia: Inquérito investigará viagem dos vereadores. O Popular, Goiânia, 23 abr. 2005. Política, p. 10.
_____. Viagem dos vereadores: Câmara de Aparecida é pichada. O Popular, Goiânia, 25 abr. 2005. Política, p. 9.
RICOEUR, Paul. Interpretação e ideologias. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. 25. ed. São Paulo: Cultrix, 1999.
SOUZA, Agostinho Potenciano. A leitura como varinha de condão. Signótica, Goiânia, v. 14, p. 11-26, jan./dez. 2002.

[1] O relato do fato é de nossa autoria e nele nos limitamos a documentar apenas o pertinente para a compreensão total do trabalho.
[2] “Quais condições para quais comportamentos linguageiros possíveis e quais comportamentos linguageiros efetivos para quais condições”.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O TRISTE DESAFIO ENTRE UM REPISTA E UM REPENTISTA

É curioso como o desejo de matar o pai é latente no filho. O parricídio, que é o nome dado a esse tipo de delito, é uma veleidade da psicogênese humana, estereotipado na figura de Édipo e se reproduz nas diversas esferas sociais. O crime ocorre também na arte. Só que, aqui, as punhaladas se convertem em palavras que é o melhor jeito de se matar um homem.
O que mais me chamou a atenção fora um desafio, que, há algum tempo, fora patrocinado por um programa domingueiro, entre um “repista”, não sei se paulista ou carioca, e um violeiro repentista do Nordeste.
O sertanejo era um homem de pele baça, tinha pequenos sulcos na região ocular e cantava numa simplicidade analfabeta, com uma boca severa e dentes em petição de miséria.

O repista, ao contrário, era jovem. E a plástica jovial parecia fazê-lo sentir-se em larga vantagem. Uma tolice. O mais engraçado é que percebi que o tal artista sofria demais enquanto se apresentava. O sujeito era louco. Sacolejava o corpo com gestos endurecidos e, naquele sacudir desengonçado, dava pulinhos irregulares no palco, espalmando o vento com uma agressividade dos idiotas. Por outras vezes, os gestos evoluíam-se. E ele, então, se punha a socar alguma coisa, uma espécie de bicho imaginário, coisa de garoto mau mesmo.
O desafio a que se submeteram os dois não me revelou outra coisa, senão uma tentativa desaforada de um filho querendo matar o pai pela garganta. No curso da peleja, o repentista, improvisador experimentado, construía seus versos amparado por muitos neologismos e por sua gama vocabular, cujas palavras foram aprendidas e guardadas no acúmulo dos anos.
Entretanto, por mais que suasse, o velho repentista, sua construção trovadoresca quase nada arrancava do público, formado por adolescentes e jovens senhoras – perdoem-me as feministas de plantão pela terrível coincidência! Mas, verdade tem de ser dita: as que mais se entusiasmavam com as emboladas do poeta do sertão batiam uma meia dúzia de palmas, aliás, bastante acanhadas e arrítmicas.
Coisa contrária acontecia após apresentação do repista. A cada investida do garoto, o público sacudia-se numa algazarra dantesca, enlouquecida, incitado por um baixinho, um sujeito arredondado que se vestia como criança, mas em cuja cara era possível perceber o peso de umas cinco décadas.
"Agora era a hora e a vez do rap!" Provavelmente era assim que gritava o baixinho levantando os braços solicitando a euforia do mulheril extravagante, que dava “vivas” e “upas” sem perceber a noção do ridículo, diante daqueles versos que saíam mais atrapalhados, mais incertos, mais capengas, ou seja, mais repetidos e mais estupidamente irregulares.

Por fim, toda aquela pendenga domingueira só serviu para que eu pudesse me recordar do amaldiçoado Édipo. Justamente aquele que estrangulou o pai e que se casou com a mãe, Jocasta, razão pela qual ainda é estudado com algum entusiasmo.
A história de Édipo é certamente a história de um mito, mas como todo mito tinha, ou, aliás, tem, na sua razão mais profunda, enfim, na sua razão fundante, a finalidade de desvelar o social, a história de Édipo deu, e ainda dá, pano pra manga.
Na esteira dessa matriz mitológica, trilharam os mais diversos movimentos, da ciência e da arte, que se firmaram pela polêmica.
É o caso de escritores, artistas de um modo em geral, e de tantos filósofos e cientistas que não se ocuparam de outra coisa, senão de tentar destronar seus respectivos mestres.
O que se percebe, no fim das contas, é que a luta do filho contra o pai é, na verdade, uma metáfora da luta do novo contra o velho; daquele que busca espaço contra aquele que já se encontra estabelecido, a exemplo dos ataques de Rimbaud contra o Parnaso e da oposição de Aristóteles a seu antecessor, Platão.
Portanto, não devem se iludir as jovens colegiais, nem dar tantos gritos, gritinhos e "upa! upa!" para um repista, cujo valor artístico ainda parece muito duvidoso. O rap é muito ruim em todos os sentidos! E o mais surpreendente está na constatação de que, apesar da melodia ser diferente do ritmo do repente, o repista é certamente um filho do repentista – e, diga-se de passagem, por sinal, dos mais mal feitos. A maioria dos repistas não possui o menor talento natural vocal e sequer maneja um instrumento ou quer estudar para aprender a lidar com a musicalidade. Não é à toa que os repistas estão sempre reproduzindo aqueles barulhos percussionados na cavidade bucal, como confessada e humilhante prova de que não sabem sequer dar socos contra um tambor, ainda mais dedilhar uma viola como faz a maioria dos repentistas nordestinos.
De volta à pendenga domingueira, o que ficara inscrito dos socos verbais entre o poeta do agreste e o pseudo vate suburbano foi isso: uma briga cega de filho contra o pai. A histórica peleja do discípulo querendo destruir o mestre. Tanto foi que, à medida que a fadiga se intensificava, o repentista, o pai, vocabularmente, subjugava o filho. Era mais experienciado, violeiro do improviso, acostumado com as impertinências da seca e aprendeu a fazer versos sobre o chão duro da vida.
Na contraparte, o repista, o filho, aprendiz inconfesso, arranhava uns versos incertos e repetia outros inteiros, numa variação louca de temas. Foi quando ele, o repista, no sufoco da causa perdida, sem que o público cegamente desse pela derrota, fez uma derradeira investida. E o jeito foi atacar a estrutura do velho repentista, aquele pobre diabo, expondo em público toda a sua fealdade.
E, de certo modo, funcionou mesmo, porque, a cada adjetivo desgracioso, o auditório insano erguia-se num chacoalhar abestalhado, causando pena, inclusive, no apresentador que, em muito pouco, e com pequenas caretas e franzir de testa, pôs fim à contenda e sugeriu que os versos finais fossem mais solidários.
E foi assim que logo então encerraram a triste farra domingueira, num abraço desconfiado entre o poeta nordestino e o suburbano meio-alfabetizado. O repista, talvez, tenha aprendido a lição. Ele, que se acha artista, faz uma arte rês-do-chão, com quase nenhum estudo. É uma espécie de repentista mal acabado, que nem toca viola e que, por isso, quer tirar versos aos socos, no mais puro estilo daqueles garotos norte-americanos.

quarta-feira, 25 de março de 2009

DIA NACIONAL DA POESIA

No dia 14 de março, aproveitando a data do nascimento do poeta Castro Alves, comemoramos o Dia Nacional da Poesia. É uma ocasião em que grande parte das escolas desenvolve trabalhos interessantes. Normalmente os professores reúnem os alunos, produzem materiais em forma das mais diversas figuras, sobre as quais depositam palavras, reproduzindo pequenos versos. Muitos preparam saraus, propõem até que os alunos ilustrem, declamem, dramatizem textos e assim por diante. Tudo isso, com o propósito de despertar, na criança, a sensibilidade e de tornar mais vivo o lirismo na vida do aluno.

Convém dizer, entretanto, que poesia não é composta apenas de sensibilidade. Aliás, ela o equilíbrio entre razão e sensibilidade. E é justamente essa razão que pede a discussão do conceito sobre o que, de fato, podemos considerar como poesia.

Numa cena de sala de aula, diante da pergunta sobre o que é poesia, aparecem as mais diferentes respostas. O curioso é que, em linhas gerais, senão todas, quase todas as atribuições dos alunos servem de alguma maneira para explicar o fato poético.

A palavra poesia, que vem do grego “poiesis”, significa criar, no sentido de imaginar. É talvez por conta desse pressuposto criativo, o de criar por imagens, que, no passado, havia a indiferenciação entre a lírica, a narração e o drama, pois todos os três casos, de maneira geral, eram considerados como poesia. É somente a partir das primeiras décadas do século XIX, com a adoção da palavra “Literatura”, a qual passa a designar a arte da escrita nos diferentes gêneros, que a poesa deixa de ser um termo generalizante, passando a termo específico, ligado essencialmente à lírica e à musica.

Mas, como sempre as respostas vão e as perguntas ficam, resta de nossa parte compreender melhor o que é poesia, numa concepção contemporânea do termo. No meu caso, quando sou perguntado, não raro, respondo utilizando as palavras que escuto dos próprios alunos, a fim de ilustrar a dimensão da poesia, pois, como numa espécie de onipresença, ela, a poesia, pode estar em tudo, dependendo do olhar de cada um, ou seja, da condição subjetiva daquele que vê e transforma a matéria natural em elemento poético. Entretanto, diante da pergunta, quase sempre me ocorre uma resposta enfática, a de que poesia “é sentimento de mundo”. Podemos, por exemplo, dizer que poesia é recordação, entendendo como “recordar” a idéia de tornar presente no coração (na mente, para uma concepção mais moderna) o passado, o presente e o futuro. Recordar o passado é trazer ao coração, ou na mente, o passado, como acontece no poema “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu,

Oh! Que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonho, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Mas, por intermédio da poesia, podemos também recordar o presente, já que alguns textos parecem não envelhecer nunca, apontando insistentemente não somente para o contexto do poeta, mas também para o contexto da própria leitura. Isso porque o poeta não costuma se entregar aos vícios da referencialidade, da gratuidade, e do panfletarismo, preferindo falar mais de sentimentos universais e menos de paixões particulares, restritas ao tempo e ao espaço. Dessa maneira, o escritor contraria aqueles que acreditam que poesia seja coisa de passadistas, porque, afinal de contas, é possível, sim, discutir o presente sob a ótica da poesia, como acontece no poema “Nosso Tempo”, de Carlos Drummond de Andrade, do qual retiramos exemplarmente o fragmento:

Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
[...]
Este é tempo de divisas
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

E, por mais que a expressão pareça contraditória, podemos afirmar ainda que a poesia também é importante para nos fazer recordar o futuro. Isso acontece porque o poeta, na condição de vate, é um visionário, sujeito que faz vaticínios, quase um profeta, mesmo que às avessas, sendo capaz até de antecipar nossas angústias e alegrias acerca do porvir. É o caso do poeta Augusto dos Anjos, que, há um século, mais ou menos, no seu poema “A árvore da serra”, já discutia os problemas ambientais, discussão tão em voga na atualidade, em um texto que mistura lírica, prosa e drama, como podemos ver a seguir:

As árvores, meu filho, não têm alma,
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma!...

— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

No arremate, podemos dizer então que poesia “é um texto em que o significante não existe meramente a serviço do significado”. Para muitos é visualidade, principalmente para os apreciadores da poesia concreta, os quais enfatizam a importância do visual na produção de sentido. Para outros é pensamento por imagens, já que, de fato, não podemos mesmo conceber poesia sem imagens. Enfim, poesia é linguagem, é expressão, é ritmo (música), é som, é palavra carregada de sentidos, é comunicação (mesmo que comunique despretensiosamente, sem tanta objetividade), é o Tudo, é o Nada. Não há discordância em nada disso, assim como não se discorda também de que a poesia sirva para provocar sentimentos, causar impressões, reflexões e as mais diferentes emoções.

Gedeon Campos


quarta-feira, 11 de março de 2009

Velhos diretores: sentimento de decadência

Muitos diretores das escolas municipais de Aparecida bem que espernearam para ficar no poder. Não duvido de que, por conta da indecisão na escolha de seus substitutos, tenha inclusive havido momento em que alguns deles (os antigos diretores) do alto de seu nanico poderio, tenham chegado a dar gritinhos do tipo "tá dominado!, tá tudo dominado!", pensando ter caído nas graças da nova administração municipalista e na ingênua crença de que perpetuariam e se imortalizariam na posição de mando.
É claro que, no caso, o erro da Secretaria Municipal de Educação foi justamente o fato de ter dado prazo para que estas ilustres personnas non gratas alimentassem ainda mais a sua vaidade de poder. A exoneração dessa gente deveria ter acontecido, sem dó nem piedade, imediatamente, logo no primeiro ou, quando muito, no segundo dia de governo. A demora na reposição dessas peças só fez a tentativa desesperada dessa gente (os antigos gestores) de manter-se no poder tornar-se uma atitude ridícula. Teve gente, inclusive não pouca, profundamente jocosa, que chegou a fazer abaixo-assinado, produziram faixas louvominhosas, louvando sua própria eficiência, e usando o nome do povo para querer impressionar o prefeito e vereadores, resistindo apear do poder. Esses velhos diretores só não se lembraram, porém, de que o político, mais do que ninguém, é aquele que sabe o quanto as faixas e cartazes que louvam um determinado sujeito não passam de coisa arquitetada e levada a cabo pelo próprio ser louvado e colocado em evidência.
Ora, mas que ingenuidade a desses velhos diretores que não se lembraram de que o político é aquele que durante a madrugada sobe em postes com dizeres do tipo: "os moradores da cidade tal, do bairro tal, agradecem pelo apoio, empenho, trabalho, dinamismo do prefeito ou vereador tal!" E o povo que normalmente é citado como quem assina o texto, nem mesmo chega a saber se está agradecendo alguém por alguma coisa. Quando acorda e olha pela janela do quarto, está lá na frente de sua casa a "bendita" faixa agradecendo em seu nome.
Bem, o fato é que, para o bem de todos, não deu mesmo certo a tentativa desesperadora dos diretores de se manterem no poder. E as escolas nem se abalaram. Seguem seu ritmo ordinário e mesmo que professores e funcionários sentirem-se insatisfeitos não pretenderão a volta desses antigos gestores acostumados ao singular papel de bajuladores políticos, incapazes de entender a importância de se discutir os problemas da categoria e da educação no chão da escola e no seio da comunidade escolar.
Ninguém sentirá saudade das ameaças, dos discursos que eram mais coercitivos do que persuasivos, das convocações para reunião na casa de diretores e secretários em época de eleição... Quem terá saudade disso, senão o próprio diretor, essa figura decadente. Aliás, nos últimos dias, depois da queda de braço perdida, parece que alguns deles finalmente entenderam a importância da democracia na escola. E agora já se organizam em nome das eleições diretas para a gestão escolar. Será que apear do poder trás mesmo sabedoria? Ou não será isso apenas uma estratégia para que os antigos apaniguados voltem ao poder?

Maguito Vilela e o dilema da educação em Aparecida

Quando Maguito Vilela iniciou sua campanha pelo pleito de 2009-2012 em Aparecida de Goiânia, o preteitável não conhecia praticamente nada do sistema de educação do município. Tanto era que seus primeiros discursos quase sempre apareciam carregados de promessas que, por puro desconhecimento no assunto, nem chegavam mesmo a ser "propostas", pensando aqui no sentido restrito do termo. Verdade é que o falatório não ia além dos clichês, tão peculiares à perfórmance das campanhas políticas.
Mas de uma coisa o então candidato tomou conhecimento por meio de apoiadores como Léo Mendanha e Ozair José, secretário e deputado estadual, respectivamente, e isso marcou em definitivo os rumos de sua campanha. Maguito baseou na insatisfação praticamente generalizada de professores e demais funcionários das escolas - por sua vez, revoltados com as barganhas políticas entre o executivo e legislativo municipal, cujos arranjos transformaram os vereadores em mandatários das unidades de ensino e numa espécie caricata de senhores feudais, cada qual ligado a sua região de mando. - para ventilar a possibilidade de estabelecer as eleições diretas para gestores das escolas da rede municipal de ensino. A ideia de democratização das escolas pegou de tal modo que o prefeitável cresceu na preferência do eleitorado, o que culminou na sua vitória ainda mais expressiva.
Depois da posse de Maguito Vilela, porém, muita coisa mudou e a categoria de profissionais da educação do município passou a viver, pelo menos até agora, momentos de profunda incerteza. Nem mesmo a indicação para a pasta da Secretaria da Educação do professor Domingos Pereira, ex-presidente do Sintego, sindicato que representa a categoria, trouxe calma aos corações aflitos. O problema é que Domingos, mesmo sendo um calejado sindicalista, experimentado e acostumado a vociferar contra as mazelas e injustiças praticadas contra os profissionais da área, na condição de secretário não deixou de meter os pés pelas mãos. Serviu-se dos mesmos mecanismos dos políticos das antigas para substituir os velhos diretores das escolas, artifícios a que não deveria recorrer. Alguns garantem que o secretário é de pouca capacidade para o diálogo. Falta-lhe humildade até mesmo para conhecer a cozinha de sua secretaria. Mas o pior mesmo foi o fato de o homem, assim que assumiu, ter passado como uma espécie de tufão, arrancando paus e pedras, sem deixar nada em pé, servindo-se exclusivamente do critério político. Particularmente acho que os velhos diretores já foram tarde, mas se era para a coisa acontecer desse jeito, que a substituição fosse feita apenas pelo vereador tão acostumado a fazer com que sua própria vontade suplante a vontade popular.
Gedeon Campos

Quem sou eu

Minha foto
Professor, pesquisador nas áreas de literatura, linguagens, imagens e fatos sociais