sexta-feira, 10 de abril de 2009

O TRISTE DESAFIO ENTRE UM REPISTA E UM REPENTISTA

É curioso como o desejo de matar o pai é latente no filho. O parricídio, que é o nome dado a esse tipo de delito, é uma veleidade da psicogênese humana, estereotipado na figura de Édipo e se reproduz nas diversas esferas sociais. O crime ocorre também na arte. Só que, aqui, as punhaladas se convertem em palavras que é o melhor jeito de se matar um homem.
O que mais me chamou a atenção fora um desafio, que, há algum tempo, fora patrocinado por um programa domingueiro, entre um “repista”, não sei se paulista ou carioca, e um violeiro repentista do Nordeste.
O sertanejo era um homem de pele baça, tinha pequenos sulcos na região ocular e cantava numa simplicidade analfabeta, com uma boca severa e dentes em petição de miséria.

O repista, ao contrário, era jovem. E a plástica jovial parecia fazê-lo sentir-se em larga vantagem. Uma tolice. O mais engraçado é que percebi que o tal artista sofria demais enquanto se apresentava. O sujeito era louco. Sacolejava o corpo com gestos endurecidos e, naquele sacudir desengonçado, dava pulinhos irregulares no palco, espalmando o vento com uma agressividade dos idiotas. Por outras vezes, os gestos evoluíam-se. E ele, então, se punha a socar alguma coisa, uma espécie de bicho imaginário, coisa de garoto mau mesmo.
O desafio a que se submeteram os dois não me revelou outra coisa, senão uma tentativa desaforada de um filho querendo matar o pai pela garganta. No curso da peleja, o repentista, improvisador experimentado, construía seus versos amparado por muitos neologismos e por sua gama vocabular, cujas palavras foram aprendidas e guardadas no acúmulo dos anos.
Entretanto, por mais que suasse, o velho repentista, sua construção trovadoresca quase nada arrancava do público, formado por adolescentes e jovens senhoras – perdoem-me as feministas de plantão pela terrível coincidência! Mas, verdade tem de ser dita: as que mais se entusiasmavam com as emboladas do poeta do sertão batiam uma meia dúzia de palmas, aliás, bastante acanhadas e arrítmicas.
Coisa contrária acontecia após apresentação do repista. A cada investida do garoto, o público sacudia-se numa algazarra dantesca, enlouquecida, incitado por um baixinho, um sujeito arredondado que se vestia como criança, mas em cuja cara era possível perceber o peso de umas cinco décadas.
"Agora era a hora e a vez do rap!" Provavelmente era assim que gritava o baixinho levantando os braços solicitando a euforia do mulheril extravagante, que dava “vivas” e “upas” sem perceber a noção do ridículo, diante daqueles versos que saíam mais atrapalhados, mais incertos, mais capengas, ou seja, mais repetidos e mais estupidamente irregulares.

Por fim, toda aquela pendenga domingueira só serviu para que eu pudesse me recordar do amaldiçoado Édipo. Justamente aquele que estrangulou o pai e que se casou com a mãe, Jocasta, razão pela qual ainda é estudado com algum entusiasmo.
A história de Édipo é certamente a história de um mito, mas como todo mito tinha, ou, aliás, tem, na sua razão mais profunda, enfim, na sua razão fundante, a finalidade de desvelar o social, a história de Édipo deu, e ainda dá, pano pra manga.
Na esteira dessa matriz mitológica, trilharam os mais diversos movimentos, da ciência e da arte, que se firmaram pela polêmica.
É o caso de escritores, artistas de um modo em geral, e de tantos filósofos e cientistas que não se ocuparam de outra coisa, senão de tentar destronar seus respectivos mestres.
O que se percebe, no fim das contas, é que a luta do filho contra o pai é, na verdade, uma metáfora da luta do novo contra o velho; daquele que busca espaço contra aquele que já se encontra estabelecido, a exemplo dos ataques de Rimbaud contra o Parnaso e da oposição de Aristóteles a seu antecessor, Platão.
Portanto, não devem se iludir as jovens colegiais, nem dar tantos gritos, gritinhos e "upa! upa!" para um repista, cujo valor artístico ainda parece muito duvidoso. O rap é muito ruim em todos os sentidos! E o mais surpreendente está na constatação de que, apesar da melodia ser diferente do ritmo do repente, o repista é certamente um filho do repentista – e, diga-se de passagem, por sinal, dos mais mal feitos. A maioria dos repistas não possui o menor talento natural vocal e sequer maneja um instrumento ou quer estudar para aprender a lidar com a musicalidade. Não é à toa que os repistas estão sempre reproduzindo aqueles barulhos percussionados na cavidade bucal, como confessada e humilhante prova de que não sabem sequer dar socos contra um tambor, ainda mais dedilhar uma viola como faz a maioria dos repentistas nordestinos.
De volta à pendenga domingueira, o que ficara inscrito dos socos verbais entre o poeta do agreste e o pseudo vate suburbano foi isso: uma briga cega de filho contra o pai. A histórica peleja do discípulo querendo destruir o mestre. Tanto foi que, à medida que a fadiga se intensificava, o repentista, o pai, vocabularmente, subjugava o filho. Era mais experienciado, violeiro do improviso, acostumado com as impertinências da seca e aprendeu a fazer versos sobre o chão duro da vida.
Na contraparte, o repista, o filho, aprendiz inconfesso, arranhava uns versos incertos e repetia outros inteiros, numa variação louca de temas. Foi quando ele, o repista, no sufoco da causa perdida, sem que o público cegamente desse pela derrota, fez uma derradeira investida. E o jeito foi atacar a estrutura do velho repentista, aquele pobre diabo, expondo em público toda a sua fealdade.
E, de certo modo, funcionou mesmo, porque, a cada adjetivo desgracioso, o auditório insano erguia-se num chacoalhar abestalhado, causando pena, inclusive, no apresentador que, em muito pouco, e com pequenas caretas e franzir de testa, pôs fim à contenda e sugeriu que os versos finais fossem mais solidários.
E foi assim que logo então encerraram a triste farra domingueira, num abraço desconfiado entre o poeta nordestino e o suburbano meio-alfabetizado. O repista, talvez, tenha aprendido a lição. Ele, que se acha artista, faz uma arte rês-do-chão, com quase nenhum estudo. É uma espécie de repentista mal acabado, que nem toca viola e que, por isso, quer tirar versos aos socos, no mais puro estilo daqueles garotos norte-americanos.

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