Ensina-se na escola que a linguagem é comunicação e que, por meio dela, os homens retratam representam e compreendem a realidade. Mas pensar que a expressão verbal seja uma forma de se fazer refletir o real é olhar de modo ingênuo a linguagem. Aliás, é supor uma relação aparentemente pacífica entre os sujeitos que fazem parte do "jogo" comunicacional. Chamo de jogo porque, com efeito, as cenas discursivas, cenas linguageiras, cenas conversacionais, oferecem-nos uma ideia de interação verbal que, em grande parte dos casos, nada mais é do que pura ideologia, espécie de "drible" com o fim de escamotear e de suplantar as verdades da vida.É necessario entender que a "interação verbal" não é uma realização tranquila e os discursos muitas vezes oferecem-nos apenas uma ilusão de objetividade. Então, quando penso no professor ministrando leitura servindo-se de jornais e revistas, que são uma espécie de escrita do quotidiano, ocorre-me sempre a seguinte indagação: de que modo agir para que os textos se desvelem aos olhos do aluno? Essa preocupação cresce ainda mais quando o assunto é publicidade no contexto escolar, porque um simples deslize, por ignorância no assunto, poderia causar danos de difíceis reparos. É o que ocorre quando o professor encanta-se pelo continente e ocupa-se de embalagens e rótulos, satisfazendo-se com uma leitura meramente intrumental das coisas.Digo isso porque, em certa ocasião, uma professora fez um depoimento emocionado de que, pelo fato de ter trabalhado em sala de aula com marcas de produtos e marcas de empresas, uma sua aluna havia identificado uma loja tal, durante um passeio tal pela cidade. Mas esse tipo de trabalho é muito superficial e apenas acelera o consumo irrefletido. O professor acaba atendendo aos interesses do mercado, produzindo consumidores que possuem com as mercadorias uma relação oposta e, portanto, contraditória. Chamo de contraditória o fato de não ser mais as mercadorias que estão aí para suprir às necessidades do homem. E sim o fato de serem os homens que agora parecem apêndices das mercadorias. São elas, as mercadorias, que geram a necessidade no homem, quando na verdade são elas que deveriam ter sido geradas pela necessidade do homem.O estudo da publicidade deve abrir os discursos de modo que o aluno possa identificar quais mecanismos estariam fazendo parte do jogo comunicacional a fim de convencer o leitor e acelerar o consumo. As marcas dos produtos não podem entrar em cena, alheias à análise das cores, dos formados e do design de embalagens dos produtos. (continua...)Gedeon Campos
terça-feira, 10 de março de 2009
O leitor no mundo
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Quem sou eu
- Gedeon Campos
- Professor, pesquisador nas áreas de literatura, linguagens, imagens e fatos sociais
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