A idéia de que a ditadura esteja morta e enterrada é apenas crença, pois a truculência ainda reina por aí. O que há na verdade é certo eufemismo, já que houve ao longo dos anos uma redistribuição das antigas forças que amarravam as estruturas daqueles tempos. Ela, a ditadura, perdeu o seu caráter centralizador, da época em que, como bicho, “gente boa” caçava “gente ruim”, causadora da “desordem” pública. Naquele tempo, a ditadura não conseguia evitar o choque e, contra ela, erguiam-se as mais diferentes facções, as mais distintas vozes. Por isso, fora necessário que o regime se reeducasse e, daí, estratégicamente passasse a habitar as mais diferentes esferas da estrutura social.
Nos dias atuais, a mais tradicional forma de ditadura é a de ditar o silêncio. Mas, ao contrário daquele tempo, hoje, isso não significa mandar calar a boca. Silenciar alguém, muito além de matá-lo, é promover uma imensidão de vozes sobre sua fala, assim, como numa espécie de tortura chinesa, de maneira que uma voz reclamante passe por soar praticamente imperceptível. Colocar tanta gente falando e berrando besteiras à sua volta vai fazer com que sua fala não passe de um som fraco, mirradíssimo, em meio a um indiscriminado coral de vozes agonizantes, pronunciadas por gente que nem sabe que agonizam sob os chicotes da dominação.
Mas o melhor jeito encontrado de fazer imperar o silêncio ditatorial foi mesmo com o envolvimento da indústria cultural. O lixo casou perfeitamente com o perfil brasileiro! A maior parte das revistas e jornais não presta. A quantidade de gente que lê biografia de famosos é espantosa. O pior de tudo isso é o consumo de livros de auto-ajuda que só ajudam, de fato, seus autores e suas respectivas editoras. Só para se ter uma noção, o Brasil é o segundo no ranking de venda de livros de autoajuda, perdendo apenas para a Bolívia. Um outro consumo preocupante é o de literatura mística. Da televisão quase nada se aproveita. São programas que nada, ou quase nada, contribuem para a grandeza humana. No domingo, quando não é um apresentador repetidor de bordões e cacoetes, é um sujeito reconstruindo a epopéia da miséria humana. O mercado fonográfico, por sua vez, produz tanto besteirol chamado de “música da boa” pela mídia que o homem comum acaba dizendo e acreditando que aquilo que está consumindo é bom de verdade. E acaba ficando bom mesmo pelo fato de não se ter uma outra coisa “menos ruim” para nos acompanhar nas nossas soirrées de bebedeiras e danças extravagantes. São Paulo e Rio de Janeiro são vanguardistas em produção de lixocultura. Ritmos que se igualam aos do "Créuuuu! créu! créu! créu!" (velocidade 5) dinamizam o processo bundocultural do país, dando um colorido animalesco para as nossas relações afetivas. De Goiás vem a temática do “corno” que, de tão recorrente, tornou-se uma afronta aos velhos cabarés. E o pior de tudo é ter que andar em ônibus lotado ao som de peitos acatarrados e produzido quase exclusivamente no nariz (leia-se Gino e Geno). Mas em pior situação está a velha Bahia, pois aquele estado tem uma dívida impagável com o resto do Brasil por conta de ter produzido os grupos de Axé. Com esse tipo de produção não se pode, entretanto, falar de morte da ditadura sem se considerar que a tal liberdade de expressão chegou ao extremo de significar, para agora e para nós, expressão nenhuma. Falar de qualquer coisa e de qualquer maneira é uma forma de silenciar uma discussão maior, de calar o pensamento razoável. Valorizar o barulho indiscriminado é causar a ditadura do intelecto. Porque, por conta disso, a gente, que já não se indigna por medo de parecer ridículo, vai atrofiando-se, encolhendo-se cada vez mais e deixando imperar a mediocridade.
Gedeon Campos

Muito bom o texto, professor! Eu não tinha ainda pensado por esse prisma reverso: a exultação e os holofotes no lixo consumível, que entorpece a maioria (sem condições de mobilidade e doutrinada a ser risonha e preguiçosa demais para pensar em desenvolver um senso crítico - pois o sistema dá tudo mastigado), cala o bom, o trabalhado, o inovador. Os resultados têm que ser puramente financeiros. O homem cada vez mais sai de cena e o sistema vai bipartindo-se exclusivamente entre o lucro e miséria, numa luta cada vez mais injusta, pois os valores humanos são jogados fora quando a meta é apenas o bem material, a qualquer custo. E quase todos acreditam. E quase todos se vendem, sem sequer conhecer a própria alma. Investir em si hoje é fazer uma plástica.
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